Tormenta Santarem
O Estudo da obra dramática de Gil Vicente
Senhor:

       Os frades de cá não me contentaram, nem em púlpito, nem em prática, sobre esta tormenta da terra que ora passou, porque não abastava o espanto da gente: mas ainda eles lhe afirmavam duas cousas, que os mais fazia esmorecer a primeira, que pelos grandes pecados que em Portugal se faziam, a ira de Deus fizera aquilo, e não que fosse curso natural, nomeando logo os pecados por que fora: em que pareceu que estava neles mais soma de ignorância que de graça do Espírito santo.
      O segundo espantalho que à gente puseram, foi: que quando aquele terramoto partiu, ficava já outro de caminho, senão quanto era maior, e que seria com eles à quinta-feira uma hora depois de meio dia, creu o povo nisto de feição, que logo o saíram a receber por esses olivais, e ainda o lá esperam.

 
Senhor:

       Os frades de cá nam me contentaram nem em púlpito nem em prática sobre esta tormenta da terra que ora passou, porque não abastava o espanto da gente mas ainda eles lhe afirmavam duas cousas que os mais fazia esmorecer:
      A primeira que polos grandes pecados que em Portugal se faziam a ira de Deos fizera aquilo e nam que fosse curso natural, nomeando logo os pecados por que fora em que pareceu que estava neles mais soma de ignorância que de graça do Spírito Santo.
      O segundo espantalho que à gente puseram foi que quando aquele terramoto partiu ficava já outro de caminho senam quanto era maior e que seria com eles à quinta feira ua hora depois de meo dia.
      Creo o povo nisto de feiçam que logo o saíram a receber por esses olivais e inda o lá esperam.

(...a carta de Gil Vicente continua…) 
   
     Repare-se que só nestas primeiras palavras da carta de Gil Vicente, a transcrição de Osório Mateus provoca dois (2) erros no sentido do texto – a nossa leitura é feita pelo texto da carta na Copilaçam, cumprindo a pontuação:

     1 (nossa leitura) – O que mais fazia esmorecer as gentes era apenas a primeira coisa que os frades diziam, e não as duas coisas que eles afirmavam. As gentes mais esmoreciam por os frades dizerem que o tremor de terra, não tinha sido por causas naturais, que tinha origem na ira de Deus por causa dos pecados tais e tais…
     1 (Osório Mateus) – Nesta leitura o que faz esmorecer as gentes são as duas coisas que os frades diziam, a ira de Deus e o espantalho do futuro tremor de terra…

     2 (nossa leitura) – O povo acreditou no espantalho, isto é, no engano introduzido pelos frades prevendo o futuro de novo terramoto bem datado, repare-se como a frase seguinte apenas se refere ao segundo espantalho: creu o povo nisto de feição, que logo o saíram a receber por esses olivais, e ainda o lá esperam
     2 (Osório Mateus) – Coloca como parágrafo a frase acima transcrita, creu o povo…, o que, na sequência do texto anterior e pontuação dada, surge como o resultado da primeira e da segunda coisa que os frades diziam, o que resulta manifestamente errado!
...Alguns outros erros de interpretação do sentido do texto desta carta se vão encontrar a seguir na transcrição de Osório Mateus, deixamos estes dois evidenciados pela nossa comparação apenas como exemplo, e apenas para colocar a seguinte questão:
 
O discurso retórico de Santarém: um claro exercício de retórica...

  —  Relato do discurso retórico dirigido aos clérigos em Santarém (padres e frades) —
      
Após (a) identificada (1) a verdade da questão, o (poeta) retórico (b) reduz toda a sua complexidade (2) a uma única ideia simples, expressa numa dualidade... Gil Vicente (c) constrói e organiza o seu discurso retórico tendo em vista (3) aqueles a quem ele se destina e (4) os objectivos a que se destina, (d) exprimindo ideias simples dirigidas a almas simples.
Lendo o Auto da India de Gil Vicente
Sobre o Auto da Índia
       Esta velha anedota serve para ilustrar que se é admissível colocarmos uma pontuação em algum texto, por alguma razão, ou porque o texto não nos seja compreensível, já não podemos admitir que a um texto se retire a sua pontuação original, sob pena de lhe alterarmos o sentido que lhe foi dado pelo autor, ou se quiserem: sob pena de prisão se lhe alterarmos o sentido que com a pontuação lhe foi dado.
       Assim, na transcrição de qualquer texto antigo, podemos actualizar letras, palavras, mudar a grafia e até a fonética, desde que se mantenha exacto o seu sentido e significado. Mas em princípio, da pontuação original de um texto não podemos retirar nada. Podemos, em favor de uma compreensão mais rápida, mas cumprindo com rigor o sentido original, acrescentar outros ou novos sinais de pontuação - introduzir pausas, dar expressão ao texto - mas nunca retirar um sinal, pois ao retirarmos estaremos sempre a correr o risco de alterar o sentido do texto, aquilo que é mais importante de conservar.
       O texto da carta Gil Vicente ao rei, escrita de Santarém em 1531, de que a seguir apresentamos o início, foi por nós transcrita da versão da Copilaçam fac-similada de 1928 (BNP), não seguimos as orientações de Stephen Reckert (1963), nem de Osório Mateus (71-Colóquio-Letras, 1983; Quimera-editores, 1988) porque encontrámos na versão deste último, várias alterações ao sentido do texto original, que denotam e provocam ainda mais erros de interpretação, erros sobretudo derivados da supressão da pontuação do texto, aquela que foi dada pelo autor da carta.

Carta de Santarém Texto completo
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João III
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Carta de Santarém, 1531 Gil Vicente, uma fala aos clérigos

FORA  COM  SALAZAR  NÃO  FAZ  CÁ  FALTA
            Enquanto o jovem agilmente acabava de pintar a vermelho aquelas letras no muro já cinza de sujo, pela leitura que fazem, dois pides avançam para o prender. Contudo, o jovem arguto, adverte: Ainda não acabei! Deixem-me acabar que falta a pontuação…
FORA  COM  SALAZAR?  NÃO!  FAZ  CÁ  FALTA.
      Copilaçam de… 1562
      Carta que Gil Vicente mandou de Santarém a el-rei dom João, o terceiro do nome, estando sua alteza em Palmela, sobre o tremor da terra que foi a 26 de Janeiro de 1531.
pide
   Nossa transcrição (grafia actualizada), em
  
Carta de Santarém, 1531.
   Transcrição de Osório Mateus, em
  
Tormenta, Quimera Editores.
       Se num texto de uma carta escrita em prosa, num texto descritivo, e aqui no exemplo ainda mais, narrativo e objectivo quanto possível, se em tão curto espaço encontramos tantos erros de sentido — dos quais aqui apenas transcrevemos dois, os do início da carta, — o que fará quando o texto for literário e artístico? Valerá a pena considerarmos como objecto de estudo tais, ou semelhantes, trabalhos, até agora tidos como investigação científica das obras de Gil Vicente? Não seria isso apenas uma orientação na direcção de um engano, e uma perda de tempo?
      Quando o texto é uma poesia, quando o texto é poético, simbólico, metafórico, quando constitui a figuração de algo, uma fábula, em suma, quando é mais complexo ainda, quando o texto é um diálogo entre personagens de uma peça de teatro, da qual quase só possuímos o texto desse diálogo, como se entenderá o seu sentido e significados se lhe retirarmos a pontuação dada pelo autor?
      Lembremos a simples prosa de uma curta frase pela anedota dos pides...
 

No livro pode ler  a análise do discurso "a fala de Santarém" de que aqui apresentamos o texto completo, com auxiliares de leitura
 
   
   
O Teatro de Gil Vicente O Teatro
Renascença e Reforma - os líderes políticos e os ideológos - ideologia e História da Europa
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Velho da Horta - Erasmo
Gil Vicente, a análise do seu Teatro FECHAR-X
Temporariamente...   Download do livro Gil Vicente, Carta de Santarém 1531. Contendo o artigo (sub-título): Sobre o Auto da Índia (análise do auto) e o Texto da peça.