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E pera declaração
desta obra santa et cetra...,
quisera dizer quem são
as figuras que virão

por se entender bem a letra.

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As suas obras dramáticas,
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Gil Vicente, artista da Renascença, reinventor do Teatro
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Exortação da Guerra
Gil Vicente, Auto Pastoril Castelhano, A autobiografia em 1502.
    Sobre a moralidade, trama, mythos e enredo


      Referimos algumas vezes que consideramos a trama como a forma abstracta do mythos (este, a forma da realidade de facto criada na peça com o seu sentido histórico) e do enredo (a forma aparente). Que entre mythos e enredo além da sua forma abstracta (esquema) comum, a trama, há ainda uma relação de transposição de um ao outro (transposição de sentido), que pode surgir por diversas formas, uma delas é a fábula, não temos a certeza se já o referimos ou não, se não, aqui fica um exemplo concreto, bem elucidativo, do qual o leitor realizará a devida abstracção. Se, por exemplo, na peça O Clérigo da Beira é fácil constatar a construção da fábula - do povo espoliado - pela passagem do mythos ao enredo (ou desconstrução, do enredo ao mythos, no público espectador), em Exortação da Guerra, a transposição do mythos para o enredo (ou inversamente), não reconstitui esta peça como uma fábula, poderia até ser uma intriga (haverá casos), mas neste caso, com certeza melhor, a transposição realiza-se na forma de uma moralidade, porque de facto há um desígnio ético ao evidenciar o estado ébrio e infernal pelas vitórias, os anseios de grandeza, conquista e expansão em nome da fé, no enredo, ao mesmo tempo que o mythos, que o suporta, apresenta uma realidade de facto crua muito sóbria e mui lúcida, mostrando a ler (ver) na peça, a sua forma mais complexa, fornecendo o ponto de vista crítico dos ensinamentos da História (Aníbal, Cepião) e do que neste mundo lemos: Homero na Ilíada, Aquiles e Heitor, qual deles o herói? Diz Aquiles: Se viesse aqui Aníbal / e Heitor e Cepião / vereis o que vos dirão / das cousas de Portugal / com verdade e com razão. E em resposta, obtém-se: (Aníbal) Que cousa tão escusada / é agora aqui Aníbal / [… censurado …] / que vossa corte é afamada / por todo mundo em geral. / (Heitor) Nem Heitor não faz mister. (505) / (Cepião) Nem tão pouco Cepião.
     
      Numa das nossas publicações de 2008 afirmámos que, quando o autor dos autos afirma que escreveu comédias farsas e moralidades, por moralidades se referia a críticas políticas. Ora, esta peça Exortação da Guerra, que nos dias de hoje podemos classificar como uma Comédia de espectáculo (envolvendo uma moralidade), foi, para Gil Vicente, aquilo que ele considerou ser uma moralidade. Se na verdade o conceito de Comédia da época difere do de hoje, poderá não haver acordo quanto à classificação que lhe atribuímos, contudo, o sentido para o conceito de moralidade em Gil Vicente encontra-se muito bem expresso nesta peça. Na crítica realizada pela ironia, ou pelo sarcasmo, com o inferno a louvar a Deus, pois a peça, pela sua crítica, muito bem expressa com toda a paródia do Inferno em luta pela Fé, pretende alertar para a existência de limites, que devem ser considerados na ânsia de ampliar o Poder, sob pena de tudo deixar perder (no Inferno).
      Esta moralidade tem dois aspectos, ao mais complexo - transposição do mythos ao enredo - já nos referimos, quanto ao aspecto mais simples, a moralidade aparente, sobejamente conhecida, dirige-se às almas simples e trata de promover a austeridade, contra o luxo as casas pardas, a renúncia às jóias para sustentar o esforço da Nação numa guerra pretendida pela glória no aumento da grandeza da Corte, da sua riqueza, mas sempre idealizada pela expansão da fé, etc., todavia, apresentada em favor do apoio ao guerreiro... Na verdade, diríamos que em confronto com a ética se considerarmos os apelos à guerra de invasão e conquista, para assim evidenciar melhor a ironia na acção dramática, portanto em oposição total com a moralidade mais complexa.
Apresentação de Exortação da Guerra

     Esta peça correspondeu a encomenda a representar em ocasião bem determinada. Qual?
     Como a didascália inicial foi alterada em 1561/62, será muito difícil encontrarmos qualquer certeza quanto ao pretexto ou ensejo da sua primeira representação, mas uma data poderá ser encontrada - e, quem sabe, se com isso se completa a informação - se se tiver documentado a presença de Fernando de Habsburgo em Portugal em 1515. O jovem infante, completando os doze anos de idade, não se teria deslocado sozinho e, portanto, talvez haja possibilidade de encontrar algum documento que mencione os nomes da nobreza que habitualmente o acompanhava nas suas viagens. Que a peça foi representada em Portugal não restam dúvidas, pela presença da Corte portuguesa, mas a cidade pode não ter sido Lisboa.
      Exortação segue-se à representação de Fama, uma farsa chocarreira que com toda a certeza não correspondeu a encargo ou incumbência por parte dos seus patronos. Todavia é na sequência dela que o autor é encarregado de encenar uma exortação da guerra com o sentido de sensibilizar e incentivar as doações para suportar as despesas da guerra, ou a compra das indulgências - a Bula da Cruzada - que o legado a latere do Papa Leão X, o Núncio António Pucio Florentim já presente em Portugal, pretende vender, e - com garantias - até vende fiado.
      A guerra que el-rei Manuel I de Portugal preparava, ficou bem explicita na peça. Pretendia então o rei de Portugal conquistar os reinos do Norte de África, Fez e Marraqueche (Marrocos), a partir da costa oeste, avançando para leste. Estas intenções foram apresentadas ao Papa Leão X em Março de 1514 e receberam a sua aprovação de 29 de Abril desse ano.
      A expedição militar, com toda a logística para a pronta fortificação e defesa de um local, e ainda a população colonizadora, saiu de Lisboa em 13 de Junho de 1515 (dia de santo António) e, portanto, a primeira representação de Exortação da Guerra será necessariamente anterior. Contudo, custa-nos a acreditar que tenha sido em vésperas da partida para Mamora.
      Como havia realizado no Auto da Alma (II parte), Gil Vicente criou um espectáculo pleno de ironia. Em 1508, em Alma, a ironia ficou manifesta no espectáculo de fingimento religioso que, na sua forma aparente, simula a liturgia da palavra de sexta-feira da paixão de Cristo, enquanto que em 1515, em Exortação, a ironia também na forma de espectáculo, se constrói a partir de um clérigo nigromante, que recorre à magia negra de chamamento aos Infernos para, coadjuvado por diabos, de lá trazerem as figuras que hão de vaticinar o futuro da Corte portuguesa na acção dramática. A ironia torna-se gritante e, supomos, terá atingindo o sarcasmo, e, pela evidência da sátira, a Censura de quinhentos danificou a peça suprimindo o que então terá considerado excessos.
      A peça Exortação da Guerra, bem à maneira da epopeia e do teatro grego, para a percepção da sua forma e para se entenderem os seus significados e conteúdos, exige alguns conhecimentos, de certo modo aprofundados: (1) da cultura clássica grega, nomeadamente da Ilíada de Homero e da mitologia subsequente ao enredo dessa obra (talvez pelo Pseudo-Apolodoro), em especial quanto à caracterização das figuras heróicas contrastantes de Heitor e Aquiles - e com este, de Polixena e Pentesileia, - mas também, (2) da História da Lusitânia, de Cartago e do Império Romano, (3) da literatura ibérica e (4) sobre as forças políticas e sociais da época e, ainda, (5) saber bem o que é a nigromancia... Sem tais conhecimentos a peça jamais será bem entendida e, de modo muito controverso, será percebida pela nossa alma mais simples.

(c) 2008 - Sítio dedicado ao Teatro de Gil Vicente - actualizado com o progresso nas investigações.
GrammarNet

- Livros publicados no âmbito desta investigação, da autoria de Noémio Ramos:

978-989-977499-5 - Gil Vicente, Auto dos Quatro Tempos, Triunfo do Verão - Sagração dos Reis Católicos.
978-989-977498-8 - Gil Vicente, Auto dos Reis Magos, ...(festa) Cavalgada dos Reis.
978-989-977497-1 - Gil Vicente, Auto Pastoril Castelhano, A autobiografia em 1502.
978-989-977496-4 - Gil Vicente, Exortação da Guerra, da Fama ao Inferno.
978-989-977490-2 - Gil Vicente, Tragédia de Liberata, do Templo de Apolo à Divisa de Coimbra.
978-972-990009-9 - Gil Vicente, O Clérigo da Beira, o povo espoliado - em pelota.
978-972-990008-2 - Gil Vicente, Carta de Santarém, 1531 - Sobre o Auto da Índia.
978-972-990007-5 - Gil Vicente, o Velho da Horta, de Sibila Cassandra à "Tragédia da Sepultura".
978-972-990006-8 - Gil Vicente, Auto da Visitação. Sobre as origens.
978-972-990005-1 - Gil Vicente e Platão - Arte e Dialéctica, Íon de Platão.
978-989-977494-0 - Gil Vicente, Auto da Alma, Erasmo, o Enquiridion e Júlio II... 
(2ª Edição)
978-972-990004-4 - Auto da Alma de Gil Vicente, Erasmo, o Enquiridion e Júlio II...

- Outras publicações:
978-972-990000-6 - Francês - Português, Dicionário do Tradutor. - Maria José Santos e A. Soares.
978-972-990002-3 - Os Maios de Olhão e o Auto da Lusitânia de Gil Vicente. - Noémio Ramos.



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© Noémio Ramos
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