Estudar a obra de Gil Vicente, hoje, implica cortar pela raiz com uma tradição iniciada há mais de século e meio, — uma tradição iniciada com o romantismo — uma tradição que se desenvolveu estratificando-se sob as ideias românticas. Consequência de uma subordinação, quase primária, às ideias expostas pelos académicos da época em que as obras de Gil Vicente começaram a ser estudadas. O romantismo preferiu o medievalismo como modelo e, como tal, assim leu as obras de Gil Vicente. E, em consequência de cadeias de citações de citações, num diz-se diz-se a lembrar a velha escolástica medieval, — e mais ainda com a vassalagem sempre devida aos eminentes académicos — assim se reproduziram e mantiveram os estudos vicentistas, assim se divulgaram centenas de doutoramentos expondo os saberes sobre Gil Vicente e o seu teatro.
     Em Julho de 2008, com os 500 anos do Auto da Alma, Noémio Ramos veio dizer, e comprovar, que tudo o que até então se tinha escrito sobre Gil Vicente devia ser deitado ao lixo, — forma de expressão — estabelecendo que um corte epistemológico era fundamental para se estudar a obra do grande dramaturgo. Veio dizer que Gil Vicente foi um excelente conhecedor da Poética de Aristóteles, tanto como das obras de Platão, e que as suas preferências filosóficas e valores humanos se encontram mais na obra de Platão que em qualquer outro lado.
      Assim, Gil Vicente soube ler, compreender e fazer uso da retórica (retórica poéticadrama — como então era entendida, seguindo Platão) como, por exemplo, podemos ler no Fedro, onde Platão apresenta as suas ideias sobre o discurso retórico:
     …afirmámos precisamente que o verosímil consegue surgir no espírito da maioria, devido à sua semelhança com a verdade. E as semelhanças, referimo-lo há pouco, quem conhece a verdade, melhor as sabe descobrir por toda a parte (…) Se uma pessoa não puder fazer a lista completa das diversas naturezas de quem o vai escutar, se não for capaz de dividir os seres segundo as suas espécies e de reduzir cada uma des­sas espécies a uma só ideia, jamais será um bom técnico da oratória, dentro do que é possível ao homem. E este resultado não o pode adquirir nunca sem muita aplicação, que quem for sensato deve exercitar, não com vista a falar e conviver com os homens, mas para se tornar capaz de uma linguagem e duma conduta que sejam do agrado dos deuses, até onde lhe for possível. Na verdade (...), quem tem inteligência não deve esfor­çar-se por agradar aos companheiros de escravidão, a não ser a título acessório, mas aos amos que sejam bons e de boa origem. (274a) Deste modo, a lonjura do circuito não te deve causar admiração. E por uma finalidade sublime se deve fazer esse desvio, e não pelo que tu pensas. No entanto, como sustenta a nossa tese, desde que se queira, também essas finalidades menores se tornarão mais belas, graças às superiores. (...)
Em primeiro lugar que se conheça a verdade sobre os assuntos de que se fala ou escreve; que se seja capaz de definir cada um deles em si mesmo; uma vez definido, que se saiba dividi-lo de novo em espécies, até atingir o indivisí­vel; que, a respeito da natureza da alma, se encontre depois de a analisar do mesmo modo, para cada uma a forma apropriada e, em seguida, se disponha e ordene em conformidade o discurso,
(277c) oferecendo à alma complexa, discur­sos complexos e com toda a espécie de harmonias, e simples, à alma simples...
    
      Sublinámos estas últimas palávras, por serem as que melhor reflectem toda a obra dramática de Gil Vicente.
          Sobre Gil Vicente disse, em Miscelânea, Garcia de Resende que o acompanhou em toda a sua vida muito de perto.
           Pintores, luminadores,
           agora no cume estão,
           ourivizes, escultores,
           são mais subtis e melhores
           que quantos passados são.

           Vimos o grande Michael,
           Alberto, e Rafael,
           e em Portugal há tais
           tão grandes e naturais,
           que vêm quase ao nível.

           E vimos singularmente
           fazer representações
           de estilo mui eloquente,
           de mui novas invenções.
           E feitas por Gil Vicente!

           Ele foi o que inventou
           isto cá, e o usou
           com mais graça e mais doutrina,
           posto que Juan del Encina
           o pastoril começou.

           Lisboa vimos crescer

           em povos e em grandeza,
           e muito se enobrecer
           em edifícios, riqueza,
           em armas e em poder.

           Porto e tracto não há tal,
           a terra não tem igual
           nas fructas, nos mantimentos…,
           governo, bons regimentos,
           lhe falesce e não al.

…governo e boas leis lhe faltam e não outra coisa!  — Que conclusão tão actual!
      Quem já leu a Miscelânea, terá reparado que não são muitos os artistas nomeados por Garcia de Resende, e muito menos os elogiados. Entre eles encontramos, pouco mais que nomeados alguns músicos, e depois de, em um ou outro verso, falar das grandes obras de pintura, escultura e ourivesaria, nomear Miguel Ângelo, Alberto Dürer e Rafael Sânzio em conjunto, apenas em dois versos (também para aí enaltecer o conjunto dos artistas portugueses), segue logo para o conjunto dos versos que acima transcrevemos. Exactamente na sequência de Miguel Ângelo, Dürer e Rafael, e imediatamente antes de se referir às grandes obras de arquitectura (também Artes plásticas) que se fizeram em Lisboa.
      De facto quando se diz que são mui novas invenções, mui eloquentes, com mais graça e sobretudo, com mais doutrina, quer dizer que é algo de novo, inventado de novo, não é, ou não corresponde, a uma tradição, e quando se diz, muito eloquentes, quer dizer que não está feito de leitura fácil, e que apenas uma elite terá acesso à sua compreensão, com mais graça, quererá dizer que não se resume à graça habitual, vai além disso, e mais doutrina, pois como devia ser evidente, todas as suas obras têm mais conteúdo, mais valores, valores mais altos naquilo que transmitem, mais que quaisquer outras do seu tempo… E todos estes valores, invenção, eloquência, graça e doutrina numa escala que Garcia de Resende coloca acima de todos do seu tempo, de qualquer país do planeta a que se refere, pois o conteúdo da sua Miscelânea são os acontecimentos mais excepcionais do seu tempo (1470-1536), pois foi essa tarefa a que se propôs nesta sua obra.
      Repare-se como estas palavras de Garcia de Resende contradizem a concepção criada, ainda hoje amplamente divulgada pelas enciclopédias e pela história do teatro e da literatura portuguesa, e que esta, apesar de tudo, nunca negou uma certa invenção e originalidade a Gil Vicente.

                                                  —  [*]  —
      Outro intelectual do seu tempo, João de Barros (1496-1570), que em 1532, manifestando-se  sobre as ideologias da época, de certo erasmismo então em voga e dos seus aruatos, já afirmava que, o Homem, — com o objectivo de enganar (explorar) os seus semelhantes (escreve em Rópica Pnefma), o sol vendia se estivesse ao seu alcance — de tudo o que alcança no mundo quer fazer mercadoria. Assim, pelas palavras de João de Barros:
     Coisa alguma há no mundo fora de mercadoria?

      Em 1532, escrevendo Ropicapnefma, — Mercadoria espiritual — João de Barros fala pelo Entendimento que, aliádo à Vontade e ao Tempo, enfrenta a Razão. Enquanto protagonistas da disputa entre a Razão e o Entendimento, são personagens do diálogo: a RAZÃO (o Poder / Saber), e contra ela estão o ENTENDIMENTO, a VONTADE e o TEMPO.
      Diz João de Barros que se formou na Corte portuguesa, e que… 


      [Entendimento]: Sei mais o que me deu a Natureza e o Paço, que eu mais estimo, por ser um saber galante e cortesão, não ganhado ao fumo da candeia do escolar, porque tem outras priminências naturais e não abachereladas.
      [Razão]: Que preminências?
      [Entendimento]: Não, mau vocábulo é este, ainda me isto ficou do estudo; não é o termo cortesão priminências: primores quisera dizer.
      [Razão]: Bem, a que chamas tu primores? Não é termo derivado do latim como priminências?
      [Entendimento]: Ó que especial cousa! Há de se comparar a doçura e graça de um vocábulo ao outro? Isto são passos substanciais para homens de arte e de muito preço. Que farias já se visses o modo da Corte no falar, no escrever e no vestir, quando somente de um termo loução te espantas? Como se achariam enleados Demóstenes e Túlio [Cícero], se lhe dessem uma carta de um homem destes especiais da corte? Parece-te, quando viesse ao subscrito, por mais copiosas que a língua grega e latina fossem, achariam vocábulos conformes a sua qualidade? Se soubesses que cousa é entrar ou atravessar uma casa, com despejo e ar do corpo, sem pôr a mão pelo cabelo ou bulir com as luvas, e quanta desenvoltura tem o que sabe cometer uma mó de homens especiais e de respeito, partes essenciais do Paço, eu te afirmo que julgarias poder trinchar a um rei quem acertar a junta dum subscrito dos de agora. (...) Para que melhor entendas quem eu sou e noutra hora não faças de mim tão torpes comparações como fizeste, deixo as letras à parte, e venho ao puro e natural saber, ganhado por sangue e conversação com homens especiais e de grandes qualidades. (...)

Nota:  Sobre o significado da importância social da expressão trinchar a um rei, pode e deve ler O Elogio da Loucura de Erasmo de Roterdão, contemporâneo de Gil Vicente e de Barros. 
      O homem de arte, especial da Corte portuguesa, a que João de Barros se refere em 1532, é Gil Vicente — homem da arte retórica — que havia pouco tempo tinha estado em Santarém (1531) ao serviço de el-rei, para acalmar a população enfurecida contra os cristãos-novos (judeus e mouros). No texto, que transcrevemos, João de Barros coloca Gil Vicente a par, ou mesmo acima, de Demóstenes (grego) e de Cícero (romano), considerados na época os maiores expoentes na retórica.
      Sabemos que se refere a Gil Vicente porque João de Barros escreveu na sua Gramática da Língua portuguesa (1539) dizendo que foi ele quem mais e melhor tratou a língua portuguesa... E Gil Vicente cómico [ comediógrafo ] que a mais tratou em composturas [ composições ] que alguma pessoa destes reinos...
      Se quanto às atitudes, à retórica e ao domínio de uma assembleia João de Barros coloca Gil Vicente acima de Demóstenes e de Cícero, quando à poesia, ao pensamento e amplitude do saber, Gil Vicente, sendo o único autor português referenciado, é apresentado pelo autor do Diálogo em louvor da nossa linguagem (ainda na sua Garmática), entre Virgílio e Aristóteles...
      Nesta gravidade (como já disse) a [língua] Portuguesa leva a todas, e tem em si uma pureza e sequidão para cousas baixas, que se lhe pode por a tacha que Pérsio [Aulo Persio Flaco] (na Sátira primeira) punha aos versos de Virgílio: os quais dizia serem tão de severo e cobertos de casca, que se não podiam abrandar. Pero, com aquela majestade e alteza, falou no quarto de sua “A Eneida” tão alta e mimosamente do amor, que lhe não chegaram as guarredices de Ovídio, e as doçuras de Petrarca, que nestes brincos muito se esmeraram.
       Foi o Virgílio naquele seu livro, como nestes nossos tempos O Queguem
[Johannes Ockeguem, 1410-1497] em a compostura [ composição ] da música: todas as excelentes consonâncias achou, depois Jusquim [Josquin des Près,
1440-1521] e outros compoedores [ compositores ] que vieram, sobre elas fizeram sua diminuição e contraponto. A linguagem Portuguesa, que tenha esta gravidade, não perde a força para declarar, mover, deleitar, e exortar a parte a que se inclina: seja em qualquer género de escritura. Verdade é ser em si tão honesta e casta: que parece não consentir em si uma tal obra como Celestina.
      E Gil Vicente cómico
[ comediógrafo ] que a mais tratou em composturas [composições] que alguma pessoa destes reinos, nunca se atreveu a introduzir um Centúrio Português [ organização e ordem ]: porque como o não consente a Nação, assim o não sofre a linguagem. Certo, a quem não falecer matéria e engenho para demonstrar sua tenção, em nossa linguagem não lhe falecerão vocábulos. Porque, de crer é que, se Aristóteles fora nosso natural, não fora buscar linguagem emprestada para escrever na filosofia, e em todas as outras matérias que tratou.
      O ponto mais alto deste elogio, para além do paralelismo com as grandes figuras da cultura greco-romana, poetas, retóricos, historiadores, filósofos, junto com a afirmação de que Gil Vicente foi o maior destes reinos no tratamento e uso da Língua, o maior elogio, como dizíamos, é sem dúvida a sua conclusão: porque nunca lhe faltou matéria e engenho para demonstrar sua tenção, para demonstrar tudo aquilo que bem quis… A Língua é um meio, sem dúvida o melhor veículo de comunicação, contudo, com ela e para além dela, é necessário e fundamental, a matéria, o engenho e o saber, a arte para se demonstrar o que se quer – e com a intenção de o fazer.

                                                  —  [*] —
      Recordamos palavras de Platão (no Fedro) referindo-se ao discurso retórico quando compara o sábio agricultor, com aquele que sabe escrever o dis­curso vivo e animado, aquele homem que, nos jardins da escrita, segundo parece, semeia e escreve por divertimento, e sempre que escreve, entesoura recordações para si… (276d).

      E as palavras de Gil Vicente no Preâmbulo (carta ao rei): Pois rústico peregrino de mim, que espero eu? Livro meu, que esperas tu? Porém [por isso] te rogo que, quando o ignorante malicioso te repreender, que lhe digas: Se meu Mestre aqui estivera, tu calaras.

      Voltando ao mesmo texto de Platão [Sócrates] ...(276a) há um outro discurso, seu irmão legítimo... Aquele que com sabedoria se escreve na alma do discente, esse é capaz de se defender a si próprio e sabe falar e ficar silencioso diante de quem convém. [Fedro] Referes-te ao discurso de quem sabe, o discurso vivo e animado, de que o escrito se poderia considerar justamente uma imagem? [Sócrates] Absolutamente!...
O Estudo da obra dramática de Gil Vicente
velho da horta
          Gil Vicente falando pela  sua Obra ( os seus autos ),
à sua pergunta feita no
Preâmbulo:

Livro meu que esperas tu ?

...fornece a primeira resposta no próprio  livro ( é seu livro quem fala ), dizendo no
Epitáfio:

Pergunta-me quem fui eu
atenta bem para mim
    /.../
toma-me por teu espelho
olha-me e olha-te bem.
    Ansiosamente procurado pelos investigadores...

    A presença do pensamento de Desiderius Erasmus Roterodamus, Erasmo, nas obras de Gil Vicente, surge nos autos logo após as primeiras publicações polémicas do religioso retórico de Roterdão.
    Contudo, Gil Vicente faz fortes críticas a muitas das suas ideias, colocando-se sempre bem acima das ideologias e das acções que a partir delas se desenvolvem.

    Erasmus é Cupido, como o seu nome indica,  e está presente em Frágua de Amor, Nau de Amores, Jubileu de Amores.
    De início, está em São Martinho, em Alma, em Rubena, etc., e, Floresta de Enganos, com uma forte crítica, presta-lhe uma última homenagem, mas está também presente em muitos outros autos.
O que há de novo
O nosso trabalho incide sobre o Teatro de Gil Vicente, e o seu verdadeiro significado, na sua época e no nosso tempo.
       
— Sem ficção da nossa parte —
          Na sua História da Europa, Gil Vicente, Artista, dramaturgo, poeta, filósofo e Mestre de retórica, com a Retórica e a Poética de Aristóteles, e o pensamento de Platão, bem assimilados e estruturados, oferece-nos a sua Visão do Mundo, colocando-se muito acima de todos e de todos os acontecimentos do seu tempo, oferecendo-nos a sua época numa grande panorâmica.

Noémio Ramos, 2008.
Lendo o Auto da India de Gil Vicente
As figuras
nas personagens dos Autos
— os protagonistas —
em
Obras

As suas obras dramáticas,
a lista de todos os autos,
em
Autos
Datação das obras, dos Autos de Gil Vicente
Cassandra e Velho
Gil Vicente na sua época.
Para conhecer Gil Vicente e o seu Teatro é desde logo necessário compreender a sua primeira peça escrita e representada.
— Leia pela nossa página Auto da Visitação, sobre as origens.
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Gil Vicente Apresentação
Este Sítio é dedicado a Gil Vicente, artista da Renascença, o reinventor do Teatro.
O Estudo da obra dramática de Gil Vicente
Ler Erasmo e Gil Vicente
 
   
   
O Teatro de Gil Vicente O Teatro
Renascença e Reforma - os líderes políticos e os ideológos - ideologia e História da Europa
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Velho da Horta - Erasmo
Os textos das páginas (como esta) deste sítio são em grande parte dos livros de Noémio Ramos
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playwright, artist of the Renaissance, goldsmith
(creator of the famous monstrance of Belém), poet,
and master of rhetoric of King Manuel I.
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