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Observações sobre o teatro ou os Autos de Gil Vicente Abril de 2010. Texto de Noémio Ramos Gil Vicente criou todas as suas peças estando sempre ao serviço e para prazer da Corte portuguesa, para um dos públicos mais cultos da Europa dos primeiros anos de quinhentos, o seu teatro não se pode confundir com teatro popular, nem o seu teatro se pode entender como teatro religioso, pois o autor nunca esteve ao serviço da religião nem da Igreja, e nem nenhuma das suas obras se pode considerar como uma obra de devoção. Como o próprio autor diz na carta preâmbulo a el-rei João III de Portugal, Vossa Alteza haveria respeito a serem muitas delas de devoção, e a serviço de Deus endereçadas, e não quis que se perdessem, como quer que cousa virtuosa por pequena que seja não lhe fica por fazer... Em suma, era o rei que considerava as peças de teatro de Gil Vicente como obras de devoção e ao serviço de Deus endereçadas, não o seu autor. |
| Sobre os autos de natal realizámos uma leitura um pouco mais atenta que o comum e, publicámos uma primeira análise do Auto de Sibila Cassandra (natal de 1511), juntamente com o nosso estudo sobre o Auto do Velho da Horta, que está na sequência de Cassandra na sua figurada História da Europa, e também uma listagem de todos os autos de Natal, assim como outros com temas que numa primeira leitura (pela nossa alma mentalidade mais simples) aparentam religiosidade, como o Auto da Alma, pelo que remetemos o leitor para as respectivas páginas. |
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Sobre a prosa conhecida de Gil Vicente, o Preâmbulo que referimos, e a Carta de Santarém (1531) a el-rei João III de Portugal não se conhecem outros documentos em prosa (própriamente dita) do autor dos autos já evidenciámos, pela sua leitura que fizemos, que o seu autor (Gil Vicente) como no discurso retórico aos clérigos, a sua fala em Santarém se exclui a si próprio das crenças religiosas. Contudo não é nosso propósito afirmar se Gil Vicente seria ou não crente desta ou daquela religião, mas tão somente apresentar a sua obra dramática. E na sua obra, a religião como ideologia da época, está sempre presente. Assim como estão presentes as várias instituições que comandam essas ideologias e os seus ideólogos, como todos aqueles que as orientam e lideram, e as suas variadíssimas lutas pelo poder, pelo domínio absoluto dos seus oponentes, reflectindo assim a realidade do seu tempo na Europa. Um exemplo significativo destas palavras é dado por Gil Vicente (entre muitos outros) em Sibila Cassandra... Está disponível a breve descrição da peça que não deixa margem para dúvidas, embora os espíritos mais simples ou com défice cultural, ou de leituras muito embora carregados de livros (ou citações), possam não se aperceber que a Cassandra de Gil Vicente é a donzela bela da cantiga feita e ensoada pelo autor, que não deve e não pode ser violada como foi a Cassandra troiana. |
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Como demonstrámos com o nosso elementar estudo da época, e com a mais atenta análise do Auto da Visitação (1502), Gil Vicente, desde logo, nesta sua primeira obra, mostra conhecer o teatro grego e saber usar os preceitos para a tragédia que Aristóteles analisou na sua Poética. Um conhecimento elementar da época serve para demonstrar o desvio total da realidade de quase todas as leituras de Gil Vicente feitas desde o romantismo. Interpretando mal, ou antes, ignorando o Poder da Mesta de Pastores e do Conselho Real de Espanha, o Conselho e Aldeia; ignorando o que era um Vaqueiro, uma Cabaña, o que era uma Visitação; ignorando a metáfora patoril começada por Juan del Encina, pelo qual este mesmo autor se lamenta e contesta de o compararem com os pastoris tradicionais; ou a estrutura dos versos em estrofes, e estas nas coplas, ou enlaces; as mudanças na acção (drama) dadas pelas alterações no formato das estrofes e nas rimas; as alterações na intervenção da personagem falante que passa da expressão individual para um colectivo, do momento em que o colectivo se confronta com o indivíduo, etc.; em suma, pior ainda, ignorando a estrutura da peça de teatro e desconhecendo o que era uma acção teatral profana, ou os Edifícios e os Triunfos na época, a ponto de não se aperceberem que o vaqueiro fica deslumbrado com a beleza e riqueza da Cabaña que nunca antes conhecera, mas reconhece a jovem mãe rainha Maria (com 20 anos acabados de fazer) de outros tempos passados; etc.. Já demonstrámos como se tem confundido o termo Cabaña do sayaguês e do castelhano, com a cabana portuguesa, entendendo-se por isso, uma choça, em vez de uma organização empresarial. Mas sublinhámos muitos outros pormenores importantes para a interpretação de um texto, e mais da metáfora, mais ainda de uma obra de Arte. |
| Também fruto de um conhecimento do teatro grego (comédia antiga, Aristófanes) e romano (Plauto e Terêncio) por Gil Vicente é o seu Auto da Índia, o primeiro modelo de teatro de capa e espada da renascença (e o primeiro Dom Juan), do qual apresentámos a nossa primeira leitura e colocámos em domínio público na Internet em Julho de 2009, e como divulgação do nosso texto enviámos cópias a muitos dos responsáveis nestes assuntos nas instituições universitárias de Portugal e de outros países, aquelas com Cátedras da lingua e cultura portuguesa. |
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Se a investigação nas ciências humanas e nas letras é relativamente fácil de ser entendida e alcançada, a investigação em Arte é bastante mais complexa e mais dificil de alcançar o seu entendimento. A própria História (da Arte) e as obras de Gil Vicente como as de Platão o demonstram. Na investigação em Arte, após atingir os limites humanos da investigação científica sobre o objecto de Arte em causa, há que passar ao patamar superior do inteligível (o mais alto na linha dividida na vertical de Platão saber voltar à Caverna e sobreviver, ser capaz de voltar a sair atingindo a hiponóia da obra de Arte na noética superior), para utilizar ainda a linguagem de Platão. Neste patamar é preciso saber ler as semelhanças nas diferenças onde parecem não existir saber movimentar-se no mundo figurativo, nas metáforas das metáforas, nas metáforas das ideologias, nas metáforas da realidade... E para este mundo não tem havido formação, pois, em geral, nem dele há consciência da sua existência. Como dizia Pierre Francastel há mais meio século atrás, existe um pensamento figurativo como existe um pensamento matemático... Contudo, na nossa investigação devemos, tanto quanto possível, utilizar a cultura da época em que o Teatro de Gil Vicente foi criado, utilizar os mesmos dados que estavam disponíveis ao autor dos Autos. E por isso recorremos a Aristóteles, e muito mais ainda a Platão, que foi o autor preferido por toda a renascença. Assim, para exemplificar o salto ao patamar superior do inteligível, lembramos Platão, na República (487a488a), com Sócrates respondendo a uma pergunta de Adimanto, após um complexo raciocínio deste sobre a argumentação racional e os seus limites: A pergunta que me fizeste carece de uma resposta em forma de metáfora. [Adimanto] Mas não é teu costume, segundo julgo, falar por metáforas. [Sócrates] Seja. Estás a troçar, depois de me teres atirado para um raciocínio tão dificil de demonstrar! Ouve então a metáfora... (...) Após a conclusão da metáfora, [Adimanto] É mesmo assim! [Sócrates] Não me parece que seja necessário examinares a fundo o quadro, para veres que se assemelha às relações das cidades com os verdadeiros filósofos; mas compreendes o que quero dizer. [Adimanto] Perfeitamente! Este não é um exemplo único nos textos de Platão. Mas, hoje, e cada vez mais, as dificuldades em ver as semelhanças e ler uma metáfora (no sentido mais geral da palavra) é uma constante entre o público mais bem formado e mesmo entre os mais eminentes académicos. O exemplo mais importante apresentado por Platão desta situação é Hípias (em Hípias), o maior sábio da Grécia, que sabia mais que os sete sábios todos juntos, e era absolutamente incapaz de ler uma obra de Arte. Por isso, as preferências deste tipo de sábios, em relação à Arte e aos artistas encaminha-se sempre para os tolos, os patetas, os rapsodos, os íons. Que são sempre os mais premiados, sempre apresentados e beneficiados como os melhores da urbe. Assim se fazem os grandes artístas da actualidade e assim se enchem os museus. |
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Mas o problema com as obras de Gil Vicente começa logo com a investigação científica (nas letras), com a sua prosa, nas deficientes leituras do Preâmbulo e sobretudo da Carta de Santarém, e mais ainda, como se pode ver no parágrafo exposto mais acima, confrontado com a nossa análise do Auto da Visitação e Visitação é uma peça muito simples, pois, nem a letra dos versos, nem a sua organização em estrofes e coplas (ou enlaces), nem a semântica (senão a sintaxe) das frases tinha sido entendida até agora, quanto mais o sentido do texto global da obra... E só depois dele bem entendido se pode passar à análise da peça de teatro, do drama, da acção dramática... E só depois, se passa à obra de Arte, mas para esta, só numa elevação ao patamar superior. Como Platão teria deixado escrito na porta da sua Academia (tradução livre): aqui só entra quem souber toda a geometria (a geometria era o melhor modelo da Ciência da época). |
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Observações sobre o nosso projecto de investigação Enfrentámos a proposta de apresentar os resultados dos nossos estudos da época (cultura, literatura, etc.), da nossa pesquisa e investigação científica, na forma de sinopses dos autos de Gil Vicente, a par da sua listagem ordenada na datação correcta e dados históricos, em suma todo o trabalho mais árduo. Ora, não devendo nada ao país, nem a Fundações ou outros organismos, nem a ninguém, optámos pelo seu adiamento constante enquanto se mantiverem as condições em que trabalhamos. Decidimos fazer o que já afirmámos, publicaremos aquilo que tivermos tempo de passar a escrito. Apresentando os Autos de uma forma tão completa quanto possível, de modo a serem entendidos por clarividência, podendo haver sinopses de outras obras, mais ou menos completas, conforme se torne necessário para a compreensão do Auto que estiver a ser analisado. Foi o que fizemos com o Auto da Alma (parte de Floresta de Enganos), com o Velho da Horta (sinopse completa de Sibila Cassandra), com Visitação (sinopses de algumas peças de Juan del Encina, da Égloga de Francisco de Madrid) e, com a Carta de Santarém de 1531, onde, como um exemplo, antecipámos uma primeira análise do Auto da Índia. Decidimos que para o que não houver tempo na nossa vida, e não haverá nem para uma pequena parte, (seja aqui no jardim seja na cochichina), alguém ficará com a tarefa de prosseguir este trabalho agora iniciado, 500 anos depois de Gil Vicente... |
