Retórica e Drama - Arte e Dialéctica
Gil Vicente
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Teatro 1502-1536
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Sobre o "Auto em Pastoril Português"
...espectativas dos líderes na Arcádia
Natal de 1523
MOSCO - Idílio VI

     Pan amaba a Eco, su vecina; Eco ardía por un sátiro saltarín, y el sátiro se perecía por Lida. Tanto como Eco amaba al sátiro, el sátiro amaba a Lida, y Lida amaba a Pan. Así los inflamaba Eros. Tanto como cada uno de ellos amaba a quien lo odiaba, cada uno de ellos odiaba a quien le amaba.
     Y ensenaré esto a los que son extraños a Eros: “Amad a quienes aman, con el fin de ser amados por ellos.”

Segundo Greciantiga.org a editio princeps da obra de Teócrito é de Milão, de 1480. A editio princeps de Mosco e Bion é da Editora Aldina, Aldus Manutius, as obras foram publicadas junto das de Teócrito (1495) em Veneza.

     Queremos portanto dizer que Pastoril Português constitui um espectáculo, onde o autor criou um espaço dramático seguindo uma imitação idealizada, onde se há de pôr em cena, como recurso alusivo aquele idílio de Mosco, criando também por imitação o ambiente pastoril clássico da Arcádia (Virgílio), pela sua concretização figurada, ou por outras palavras, posta em cena como concretização do ambiente e vivência da acção dramática da peça. Como é evidente, um espectáculo realizado com a perspectiva de Gil Vicente - com grande ironia e sagacidade, espírito crítico - representando o universo cultural do seu tempo com os conflitos políticos da época.

... em Pastoril Português Gil Vicente figura a Nova Ordem internacional (um novo tipo de pastoril, que substitui o tipo pastoril castelhano), a sua orquestração - baile mandado e alianças (casamentos) - e o novo cura, Papa Clemente VII, que substitui o outro, Adriano VI, da confiança política do Imperador, surge assim uma nova imagem (da Senhora) da Igreja que vai gerar muita expectativa...

      Este Auto configura a nova ordem internacional, agora acabada de estabelecer com a vitória dos realistas de Carlos I de Espanha sobre os Comuneros de Castela, os Agermanados de Valência e a reconquista de Maiorca pelas tropas de Carlos V...
       Em 1523 o poder da Espanha imperial com a Alemanha consolidou-se, contudo um novo Papa, que esperava uma aliança para expulsar os espanhois de Itália, com a vitória de Carlos em Espanha as alianças (os casamentos) terão de ser outras. Pastoril Português, marca o início de uma nova fase na produção de Gil Vicente, a mais produtiva e sem dúvida a mais viva em termos de comédia...
        A personagem Vasco Afonso neste Auto é uma figuração do Imperador, é quem herda o Sacro Império...
        "E há de ir a Évora (Roma) para exigir a sua herança"...
        Na primeira parte do Prólogo a figura apresenta-se, e na última caracteriza-se com o baile mandado, organizando os pares em alianças. Por isso o que descreve parece ser alheio ao Auto e à realidade, mas configura o mythos.
        Entre a primeira e a terceira conta ter encontrado Gil Vicente que lhe pediu para introduzir o Auto, servindo para o autor dizer que se tem retratado, em parte (gil), nas personagens Gil (x)...
Primeira parte do Prólogo
Entra primeiramente um lavrador
por nome Vasco Afonso e diz:


Pois que já entrei aqui,
nam se me escusa falar...
Eu som dalém de Tomar,
e casei em Almeirim...,
ali mesmo no lugar.

Agora, agora, agora,
esta doma que lá vai...
Soma, que casei embora
sem licença de meu pai...,
e diz, que a nam quer por nora...

E seu pai, er, assi...,
porque se casou furtada,
nem chique, nem mique, nem nada
dão a ela, nem a mi...,
assi, pola desnevada!

De maneira,
que eles tem birra de nós...,
dizem que nem giesteira
- pois que nos casámos sós -
nam temos na Panasqueira.

Perém, amor lhe tenho eu...
E ela, samicas a mi...,
que ela o diz, soma assi,
porque ela nam tem de seu,
meu pai deu-me, e eu fogi...


E juramento faço òs céos...,
que deram tantas a enha esposa,
que é pera dar graças a Deos...,
porque, bem como raposa,
lhe estiraram a ela os véos.

Ora, o nosso cura, er
porque se paga dela,
e sicais andou com ela,
soma vonda, que nam quer
receber-nos, a mim e ela.

Mas raivar,
que já recebidos semos,
dentro, bem no seu linhar...,
todos os verbos dissemos
que se dizem ò casar.


Diziam a mim, lá deles,
que, quem casa por amores,
nam vos é nega dolores...,
emperol, que sabem eles,
Deos faz dos baixos maiores.

Aguardai,
digo agora, que casei
sem licença de meu pai,
e de enha mãe... Eu herdarei...,
ou sabeis como isto vai?

A mim, dizem-me que não,
e se é daquela maneira,
nam herdo eira nem beira,
mas nam semelha rezão...,
mas senefica cenreira.

Que se fora
a cachopa peca, ou charra,
ou algua zanguizarra,
preguiçosa ou comedora...,
que bradassem muito embora!

Mas tais vos fossem assi
as pulgas da vossa cama...,
soma abonda, que minha ama
me dixe lá em Almeirim,
nam sei como se ela chama:

Vai sandeu,
a Élvora por alvaral
del rei, que te dem o teu
como passar o Natal...
E a isto vinha eu...

Imperador Carlos V
carlos v
Segunda parte do Prólogo

E um Gil um Gil um Gil...,
que má retentiva hei...
Um Gil, cujo nam direi...,
um, que nam tem nem ceitil,
que faz os aitos a el rei.

Ele me fez...,
e tirou de minha aquela,
muito inda em que me pês...,
que entrasse cá na capela
previcar um antremês.

Aito, cuido que dezia,
e assi cuido que é,
mas nam já aito, bofé,
como os aitos que fazia
quando ele tinha com quê.

Mas o mundo
é já desgorgomelado,
todo bem se vai ò fundo...,
o dinheiro anda acossado
e o prazer vagabundo.

Terceira parte do Prólogo

Abonda, entrarão perém
treze trolucutores...,
estes, são todos pastores
de serra de Estrela, vem
em preito, com seus amores.


Atimar,
entrará Branca falando
com Inês, ambas a par,
- cantando de quando em quando..., -
e às vezes sospirando
entre cantar e cantar.


Entrará enha sobrinha...,
e Costança das Ortigas,
que em todo Val das Corigas,
nem na vila, mui asinha,
nam jazem tais raparigas.


E como entrar,
sairá a bailar Valejo
o galinheiro, que em Tomar,
chamava ao coelho conejo...,
esse mesmo há de bailar.


E por festa, a Ramalhoa
bailará com Pero Luz,
vestido no seu capuz...,
e farão a entrada boa
do bailo c’o sinal da cruz.


Pé de Ferro,
bofá, um bom escudeiro,
bom homem, lá per seu erro,
ledo, humilde, prazenteiro,
salvos nega, se me eu erro!


Este sairá a terreiro,
com uma regateira baça,
que, quando vende na praça,
tange às vezes um pandeiro...,
estes, ambos terão graça.


A cristaleira
e o almotacel pequeno,
bailarão à derradeira...,
e tanger-lhe-á o Moreno,
que sabe os bailos da Beira.


Frades, virão, vinte e sete,
que vem de furtar melões...,
e virão três hortelões,
que trarão preso um grumete,
sem jaqueta, nem calções.


E acabado,
que os frades todos andarem
um contrapasso trocado,
e os outros atimarem,
será o aito atimado!

...Segue-se a
Primeira parte da Comédia...
Ler (eBook)  Auto Pastoril Português
- Livros publicados no âmbito desta investigação, da autoria de Noémio Ramos:

(2017)  - Gil Vicente, Aderência do Paço, ...da Arcádia ao Paço.
(2017)  - Gil Vicente, Frágua de Amor, ...a mercadoria de Amor.
(2017)  - Gil Vicente, Feira (das Graças), ...da Banca Alemã (Fugger).
(2017)  - Gil Vicente, Os Físicos, ...e os amores d'el-rei.
(2017)  - Gil Vicente, Vida do Paço, ...a educação da Infanta e o rei.
(2017)  - Gil Vicente, Pastoril Português, Os líderes na Arcádia.
(2017)  - Gil Vicente, Inês Pereira, As Comunidades de Castela.
(2017)  - Gil Vicente, Tragédia Dom Duardos, O príncipe estrangeiro.
(2015)  - Gil Vicente, Auto dos Quatro Tempos, Triunfo do Verão - Sagração dos Reis Católicos.
(2015)  - Gil Vicente, Auto dos Reis Magos, ...(festa) Cavalgada dos Reis.
(2014)  - Gil Vicente, Auto Pastoril Castelhano, A autobiografia em 1502.
(2012)  - Gil Vicente, Tragédia de Liberata, do Templo de Apolo à Divisa de Coimbra.
(2012)  - Gil Vicente, O Clérigo da Beira, o povo espoliado - em pelota.
(2010)  - Gil Vicente, Carta de Santarém, 1531 - Sobre o Auto da Índia.
             - Gil Vicente, O Velho da Horta, de Sibila Cassandra à "Tragédia da Sepultura" 
(2ª Edição, 2017)
(2010)  - Gil Vicente, O Velho da Horta, de Sibila Cassandra à "Tragédia da Sepultura".
(2010)  - Gil Vicente, Auto da Visitação. Sobre as origens.
(2008)  - Gil Vicente e Platão - Arte e Dialéctica, Íon de Platão.
             - Gil Vicente, Auto da Alma, Erasmo, o Enquiridion e Júlio II... 
(2ª Edição, 2012)
(2008)  - Auto da Alma de Gil Vicente, Erasmo, o Enquiridion e Júlio II...

- Outras publicações:
(2003) - Francês - Português, Dicionário do Tradutor. - Maria José Santos e A. Soares.
(2005) - Os Maios de Olhão e o Auto da Lusitânia de Gil Vicente. - Noémio Ramos.

  (c) 2008 - Sítio dedicado ao Teatro de Gil Vicente - actualizado com o progresso nas investigações.

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