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As obras dramáticas de Gil Vicente são demasiado complexas para se deixarem ler por simples identificação e reconhecimento, há que recordar, reflectir, analisar e, com cuidada reflexão, anular as hipóteses que se negam em confronto com a realidade. Com Platão diremos, arrastando aos poucos os olhos da alma da espécie de lodo bárbaro em que está atolada elevando-os às alturas, ascendendo na linha dividida na vertical e, se o conseguirmos, alcançando por clarividência o Belo inteligível na sua Arte, todavia, as obras de Gil Vicente são também simples para as almas simples... [p.215, Auto da Alma de Gil Vicente, Erasmo, o Enquiridion e Júlio II... de Noémio Ramos] |
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O Auto da Alma em 1508, constitui a sua primeira grande obra, depois de o autor se ter libertado das suas experiências iniciais de aprendizagem. Mas, como acontece com os ensinamentos de Aristóteles e de Platão, nem Sófocles, nem Aristófanes, nem muitos outros saberes, se terão perdido para Gil Vicente. Mencionámos as aprendizagens, as técnicas do discurso, da poesia e do drama, referindo também as artes plásticas, que na época além da arquitectura, mecânica, engenharia (civil, militar, etc.), pintura, escultura, ourivesaria, incluíam os figurinos (alfaiate), o espectáculo dos cortejos, dos triunfos, e cerimónias dos senhores da renascença, faltará ainda referir os assuntos tratados pelo dramaturgo nas suas peças, e pelos assuntos definir os temas, as personagens, o seu carácter e pensamento, as ideias que cada um manifesta, etc.. E como referimos quando tratámos dos autos da primeira fase, o mythos, nas suas obras, mantém o significado original dado pelos gregos, na sua relação última com a História. [p.162, Gil Vicente e Platão, Arte e Dialéctica, Íon de Platão... de Noémio Ramos] |
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Quanto aos assuntos que servem de substância (matéria), às suas peças, Gil Vicente segue a tradição grega, e coloca em cena a História, os conflitos humanos, sociais e políticos, retirados da própria História, bem em cima dos acontecimentos, em cada momento da sua própria existência. A sua obra é sobretudo a História da Europa, num dos seus momentos mais importantes. A formação dos Estados pelas Nações, os conflitos gerados com os desejos de um Império e a transformação da Igreja Medieval numa Igreja Imperial, ou Nacional. E nestas condições, a partilha dos devidos bens pelos diversos Estados que já não se querem sujeitar à Igreja nem admitem uma Igreja Imperial, as guerras de Itália, as revoltas, os conflitos ideológicos do Poder na Europa, os conflitos religiosos, a Reforma e o início da Contra-Reforma, a ascensão da Burguesia e da Banca, o desenvolver dos Parlamentos, as novas economias e novas formas de governo, as tentativas de ascensão do povo ao poder, a liberdade política e a liberdade de pensamento e sua expressão, etc.. Tudo isto, e talvez muito mais e melhor, consta e é uma constante ao longo das suas obras. Nunca um autor dramático colocou em cena tanta informação sobre a sua época, a época em que viveu, a luta ideológica do seu tempo e as perspectivas filosóficas, sociais e políticas, os conflitos de Poder que a cada passo vão sucedendo... [p.162-163, Gil Vicente e Platão, Arte e Dialéctica, Íon de Platão... de Noémio Ramos] |
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Nunca um autor dramático soube tão bem representar o seu tempo como Gil Vicente! Criando e dizendo sempre o que muito bem quis, nas barbas do Poder Real e Eclesiástico. Não existe para ele um modelo, nem nenhum autor se lhe pode comparar. A sua obra é a melhor lição de liberdade intelectual, de Filosofia da época, das ideologias e da História, da História da Europa do seu tempo, da Renascença, a melhor (a mais Bela) que alguma vez poderemos vir a encontrar, e escrita com o desenrolar dos próprios acontecimentos. Infelizmente faltam alguns autos, entre seis, oito ou mais autos, que melhor completariam o traçado de continuidade (da História) na sua obra. Em suma, o trabalho de Gil Vicente é um trabalho que diz respeito e interessa a toda a Europa, é a História da Europa numa das suas épocas de ouro – a Renascença e a Reforma. Numa obra exemplar que surge oferecendo à alma complexa discursos complexos e com toda a espécie de harmonias, e simples à alma simples. [p.163, Gil Vicente e Platão, Arte e Dialéctica, Íon de Platão... de Noémio Ramos] |
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Sublinhamos mais uma vez: o estudo de cada peça transporta-nos sobretudo para a literatura, a filosofia, as ideologias políticas e religiosas, para a História, o poder político e a correlação de forças sociais, económicas e políticas na época. O Poder na Europa é o traço comum deixado pelo autor em quase todos os seus autos. [p.164, Gil Vicente e Platão, Arte e Dialéctica, Íon de Platão... de Noémio Ramos] |
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A História de que falamos, é a que define Aristóteles na Poética (1451b), é essa que Gil Vicente entendeu oferecer-nos com os seus Autos. Ele é um poeta no sentido dado pelo filósofo da Poética, quando diz que: A distinção entre o historiador e o poeta não está no facto de um escrever em prosa e o outro em verso; podemos transferir para verso a obra de Herodoto, e ela continuará pertencendo à disciplina de história. A diferença reside em que, um relata os factos sucedidos, e o outro inventa o sucedido, pelo que podia ou devia suceder. Daí que a poesia, [a Arte] seja mais filosófica [tal como na visão dialéctica de Platão] e de maior dignidade que a história, posto que as suas proposições são mais do tipo universal, enquanto que as da história são apenas particulares. E Gil Vicente é pela Comédia, embora as técnicas da tragédia estejam presentes nas suas obras, pela comédia, pelo facto de as coisas terem acontecido [os factos históricos já sucedidos], torna-se evidente que eram possíveis de suceder, pois não teriam ocorrido se fossem impossíveis (...), assim não é necessário que se limite às histórias tradicionais como na tragédia. [p.216-217, Auto da Alma de Gil Vicente, Erasmo, o Enquiridion e Júlio II... de Noémio Ramos] |
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Tragicomédia terá sido, porventura, uma designação para as obras que, como as de Gil Vicente, incluíam numa mesma figura os homens melhores (superiores ao que são – tragédia) e os piores (inferiores ao que são, ridículos – comédia), tal como Aristóteles havia considerado na Poética (1448ab): a comédia é uma figuração (prefiguração na linguagem de Gil Vicente), de caracteres inferiores em toda a sua vileza mas apenas na parte do vício que é ridícula. O ridículo é um defeito e uma deformação nem dolorosa nem destruidora, tal como, por exemplo, a máscara cómica é feia e deformada mas não exprime dor. Pois são sobretudo as técnicas da tragédia (serão da comédia) que vemos utilizadas nos seus autos: (1) a acção dramática, pela concepção do mythos (na História); (2) os caracteres com múltipla caracterização das personalidades e alegorias; (3) o pensamento das figuras e as ideologias; (4) a elocução e a dicção; (5) a melodia e ritmo da fala e dos cantos; e (6) o espectáculo, cenários, figurinos, música, dança, cortejos, etc.. No início um prólogo, como em Quatro Tempos (Serafim), Alma (Agostinho), etc., depois, os episódios muito bem coordenados para nos transmitir (por clarividência) o mythos, com os seus conflitos, peripécias, o recordar e os reconhecimentos, as reviravoltas, os desenlaces... Por fim, o êxodo, em cortejo ou apoteose. Parece-nos que estes seis pontos de Aristóteles, na sua essência, e com os outros pormenores – coerência e sentido do texto, metáforas, enigmas, profecias, etc., – são uma síntese racional (e por isso reduzida) dos preceitos definidos na hiponóia do Íon quanto à técnica da poética de Homero e à técnica de Platão. [p.216-217, Auto da Alma de Gil Vicente, Erasmo, o Enquiridion e Júlio II... de Noémio Ramos] |
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