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E pera declaração
desta obra santa et cetra...,
quisera dizer quem são
as figuras que virão

por se entender bem a letra.

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Gil Vicente, artista da Renascença, reinventor do Teatro
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Tragédia de Liberata

        Procurando escrever uma introdução que pudesse contribuir para uma leitura fácil e atraente da análise da Comédia sobre a divisa da Cidade de Coimbra, a peça de teatro de Gil Vicente a que nós preferimos chamar Tragédia de Liberata, transcrevemos ainda a seguir mais algumas das ideias que encontrámos, presentes naquela época, sobre a heráldica, os brasões e as divisas. A obra que nos serviu de referência, como em muitos outros casos, foi escrita por João de Barros em 1531 e publicada em 1532 - Ropicapnefma, que o autor traduz por mercadoria espiritual, - portanto, escrita mais de cinco anos depois de Gil Vicente ter criado esta peça para a representar na Corte portuguesa.

       (...)

Tragédia de Liberata
Comédia sobre a divisa da cidade de Coimbra

        A análise desta peça, em confronto com toda a obra dramática de Gil Vicente e o seu próprio processo de trabalho, leva-nos a concluir que terá sido escrita em 1526 para ser representada nesse mesmo ano. Terá sido elaborada logo a seguir a Templo de Apolo, todavia, não sabemos se depois de concluída foi suspensa a sua representação por motivo de a Corte não ir para Coimbra por haver peste na cidade. Neste caso seria substituída por outra peça, guardando-se esta para ser representada em Coimbra, o que poderia ter acontecido no ano seguinte.
        Na verdade, a datação de 1527 só é admissível pela leitura da didascália inicial e pela estadia da Corte portuguesa em Coimbra, nada mais comprova essa data para a peça. Porém, sabemos que os textos referidos, em grande parte dos casos, estão incorrectos e correspondem mais a leituras rápidas do texto das personagens, ou a algumas memórias de quem organizou ou ajudou a organizar a Copilaçam de 1562. Para nós, pelo mythos da peça e pela sua trama no enredo, somos obrigados a afirmar que esta peça estaria pronta a ser representada ainda antes de Abril de 1526, e admitimos a hipótese de o rei com a sua Corte poder ter estado às portas de Coimbra, nessa altura, do outro lado do rio Mondego, no Paço da Rainha, junto ao mosteiro de Santa Clara, e aí ter sido representada a peça. Fugindo depois do lugar logo que houve conhecimento da proximidade da peste.
        Tenha a Corte portuguesa estado em Santa Clara ou não naquele ano de 1526, assistido ou não à representação desta peça nesse ano entre Abril e Julho, ainda assim, na nossa opinião (sublinhe-se opinião), a Tragédia de Liberata deve situar-se numa classificação cronológica das peças de Gil Vicente, na sua História da Europa, entre os meados de Março e Abril de 1526, seguindo-se na ordem de classificação cronológica e na História de Gil Vicente, o Auto das Ciganas em Maio ou Junho do mesmo ano.
Em qualquer dos casos admitimos que a Tragédia de Liberata só tenha sido representada em Julho de 1527 em Coimbra, todavia, privilegiamos sempre a data da sua criação, com o fim de manter coerente a mythologia de Gil Vicente na sua História da Europa com a sua cronologia natural.
        As nossas certezas mantêm-se pelos factos históricos que servem de base ao mythos desta peça. No contexto da História da Europa de Gil Vicente, pela análise da acção dramática e pelo seu texto, a peça refere-se à situação social, política e ideológica que se vivia no final de 1525 e início do ano de1526, com todos aqueles acontecimentos, circunstâncias e ideologias que, nos anos anteriores de 1524 e 1525, contribuíram como causas dessa situação, alguns acontecimentos dos quais o autor havia já realizado uma primeira abordagem em Templo de Apolo. Contudo, como em muitos outros casos, na sua essência, pelos significados e conteúdo, a Tragédia de Liberata tem o seu sentido sempre actual e, hoje muito em especial, demonstra a sua actualidade.
        Pela intervenção do Peregrino no prólogo o autor define tudo o que deve ser deduzido do sentido e dos significados mais amplos da peça, fazendo uma ampla lista das consequências da tragédia que vai ser representada. Da referida lista faz parte: toda a apropriação territorial e toda a riqueza alcançada, todos os títulos nobiliários, todo o poder secular e do clero. Todas as diferenças sociais, pois todas as classes sociais têm a sua origem nesta tragédia, na situação figurada por Gil Vicente. Toda a existência das majestades imperiais, assim como dos reis, príncipes e infantes, duques, condes, etc., (toda a nobreza) de Portugal e da Europa.
        E assim também o Clero, e o seu poder, teve uma origem semelhante, e daí que o modo de vida da clerezia seja comum ao daquelas famílias mais poderosas, onde a sua hierarquia é quase sempre recrutada.
        Repetindo o que já transcrevemos, em 1532 João de Barros dirá:

      Sabes tu, Entendimento, qual foi a cobiça que dividiu as terras, e que primeiro achou este pronome Meu? O malicioso Poder, na minha primeira idade, quando tu em os homens tinhas fraco juízo. E este Poder, vendo a simplicidade de tantos povos, atribuiu a si, Adoração, Estado, Senhorio e Posse; como se Deus criara o Mundo para sua particular causa.

(...)

        Com a morte de Monderigón, que detinha a Liberdade, Liberata, em franco sofrimento, lança-se sobre o cadáver do seu amado chorando e, perante a fúria disforme das forças da Serpe e do Leão que a tentam separar do corpo de Monderigón, foge de cena, e indo fugindo, mui fraca e mui febre, converte-se numa Lebre desaparecendo para sempre.
        Com o fim da Liberdade selvagem, do Livre arbítrio (Liberata) e da luta pela Liberdade (Monderigón), surge a apoteose final, com o domínio das grandes famílias, da burguesia das cidades. Assim se comprovando o que o Peregrino disse no prólogo, assim a origem da nobreza, do clero e de todo o Poder senhorial.
        Assim Gil Vicente, o autor, o afirma no prólogo.
        E assim João de Barros dirá em 1532 (repetindo a transcrição):

      Pois falando em sangue e nobreza de alguns a que deram novos epítetos de magnos, castos, etc., sabes: o Júpiter, o Marte, o Hércules donde descendem? De Rómulo e Remo, pastores que andavam ao salto, e de Eneias e Antenor que venderam a pátria, e de outros de tão gloriosos feitos.(…)
      Então se vires as suas águias negras, os leões rompantes, a serpe de duas cabeças, os grifos de ouro, os falcões de prata, as estrelas em campo de sangue, com seus paquifes mais revoltosos que as portas do Labirinto, não há fera, nem ave, nem cousa acima e abaixo do sol que seja sem dono.


(...)

Uma descrição do enredo
        Um nobre Lavrador, viúvo e em ruína, por conselho de Ceridón, rei de Córdova e Andaluzia (Ermitão), a quem um gigante selvagem Monderigón mantém presos uma filha sua, Colimena e seu irmão, suas quatro damas e respectivos irmãos, ordena por seu conselho que o Lavrador envie os seus filhos mais velhos à aventura, e que se governem. O primeiro par, vai para as montanhas, Celipôncio e Liberata vão viver da caça. Um outro par, empreende a vida junto ao mar, e apenas a sua memória se conserva na peça.
        Liberata, prefere ficar num abrigo sob a protecção de seu irmão Celipôncio, que vai para a caça e faz aliados nas divisas da Serpe e do Leão - pois assim como o dragão Monderigón é homem, e mais, assim também a Serpe e o Leão o são, - e inteira-se dos seus códigos, dos seus sinais de alerta em caso de perigo, um toque da buzina que ficará com Liberata no seu abrigo.
        Liberata tem livre arbítrio mas, por sua própria vontade, fica presa e escondida num abrigo, embora cheia de vida foge ao seu porvir. Monderigón, gigante selvagem, detém a liberdade, assumida por vontade própria, sem outra escolha domina pela força, não tem livre arbítrio, pois, para sua liberdade tem de manter presa Colimena e suas damas, e irmãos, senão seu pai faz-lhe guerra permanente.
        Monderigón encontra Liberata enamorando-se dela, e ela dele. Monderigón quer Liberata, sabendo que para a libertar do abrigo tem de ameaçar ou mesmo matar Celipôncio, seu irmão, se este se lhes opuser. Entretanto Celipôncio enamora-se de Colimena presa por Monderigón no Castelo e, para a libertar considera necessário matar Monderigón.
        A aliança de Liberata (livre arbítrio) com Monderigón (detentor da liberdade), no seu casamento, oferece-lhes o mundo na mão. Todavia, Liberata indecisa em aceitar o seu amor, a liberdade e o seu futuro, ou o amor e a dependência de seu irmão, esconde-se do mundo e deixa o seu futuro ao acaso, entrega-se à sorte.
        Para resolver a libertação de Liberata e o seu casamento, Monderigón enfrenta Celipôncio, e este propõe-lhe conversação, que é aceite. Celipôncio avança e requer de Liberata a buzina para celebrar o facto, ignorando Monderigón que a buzina serve como sinal para uma traição ao seu acordo.  Assim, deste modo Celipôncio enganou Monderigón quando este aceitou a sua proposta de concertação, pois chamando a Serpe e o Leão para que o matassem não cumpre a sua palavra de cavaleiro. Deste modo Celipôncio atraiçoa também sua irmã Liberata, actuando contra a sua vontade, já antes expressa; Y qué mal te hizo él? / Has hermano de mirar / qu’es, la sierra suya, dél... Enganando e atraiçoando Monderigón e Liberata, com o fim de tirar Colimena e suas damas daquela prisão no Castelo.
        Com a morte de Monderigón, a liberdade desaparece, fugindo Liberata de todas aquelas figuras (Serpe e Leão) da nobreza em fúria disforme, transformando-se numa Lebre. Assim a tragédia resolve-se pela desdita de Liberata com a morte de Monderigón, dando lugar à glória e felicidade de Colimena e suas damas.

Conclusão
        Do enredo encaixado resulta que Colimena e suas damas são as grandes famílias que governam as Cidades, e seus irmãos são a burguesia dessas cidades. E pelas palavras do Peregrino esta é a origem do Poder na Europa.
        Assim, como foi exposto pelo Peregrino no prólogo, a tragédia de Liberata está na origem e constitui a causa essencial, de todas aquelas grandes famílias titulares da nobreza que governam os países da Europa e são senhores de todas as cidades.
        Assim sublinha o Peregrino no Epílogo e se conclui a Tragédia de Liberata, assim se some a liberdade humana, com o livre arbítrio (Liberata) transformado em lebre, desapaarecida para sempre, e a liberdade selvagem morta (Monderigón). Donde, fizeram-lhe a cova lá em cima num pego, por isso se chama este rio Mondego, e assim, a luta pela liberdade morre de pé na sua cova, por aqueles campos de batalha, e por isso a sepultura se diz Penacova.

        Monderigón morto, segundo se prova,     (770)
        fizeram-lhe a cova lá cima num pego
        pelo qual se chama este rio Mondego,
        e a sepultura se diz Penacova.
          
        Fugiu Liberata da fúria disforme,
        e indo fugindo, mui fraca e mui febre,
    (775)
        tornou-se animal que se chama lebre
        que de Liberata tomou este nome.


        E assim também, como dissemos no início e seguindo Aristóteles na Poética, para a tragédia grega, a felicidade ou a desgraça humana, são sempre resultado de acções humanas que, interferindo no desenrolar dos acontecimentos, recriam ou transformam a acção dramática e o sentido dos seus episódios, resultando em desenlaces que assumem formas e dimensões que são consequência da prática dos indivíduos actuantes.

         (...)








Figuras...
Análise e interpretação.

      Nesta segunda edição, revista com a correcção de erros, acrescentaram-se algumas páginas na parte referente à análise da Obra de Gil Vicente, consequência de se ter completado o texto de alguns parágrafos com mais informação e de se ter repaginado o livro.
      Assim, nem os números de página da 1ª Edição (impressa) correspondem exactamente ao mesmo nesta segunda edição do livro, nem o texto dos parágrafos será idêntico.

       [Tempo] …Sabes tu, Entendimento, qual foi a cobiça que dividiu as terras, e que primeiro achou este pronome Meu? O malicioso Poder, na minha primeira idade, quando tu em os homens tinhas fraco juízo. E este Poder, vendo a simplicidade de tantos povos, atribuiu a si Adoração, Estado, Senhorio e Posse; como se Deus criara o Mundo para sua particular causa. E onde a lei deste Poder diz: “Querendo assim o uso e as humanas necessidades, as gentes entre si constituíram lei”. Aquele uso, sabes como hás de entender? “Querendo a poderosa força, as gentes obedeceram à sua lei”. Cuidas que foi nesta constituição, plebiscita etc.? Somente principum placita. E sabes quem confirma esta verdade? Justino, que foi ante Justiniano, dizendo que: antes da lei escrita, a vontade dos príncipes era tida por lei. E se este Poder cobiçoso, tivera tanta capacidade quanto desejo tinha para si reter todas as possessões particulares, nunca desistira da posse delas; e quando mais não pôde, chamou-se “cabeça do povo” para levar as natas de seus frutos. Donde se causaram servidões, cativeiros, tributos e todas as outras cousas ao direito natural contrárias: multiplicando as leis com a posse. Porque nas muitas está muita execução de penas, e misericórdia de as perdoar: que é todo o seu Estado. E então vós outros que vos prezais de juristas trazeis em provérbio: “Mais são os casos que as leis”, como se elas não multiplicassem os casos: e os casos não a elas. Queres disso a experiência? Nunca se fez lei para evitar um dano que não fosse a serpente hidra: onde se corta uma cabeça, ali nascem sete. A malícia humana há de arrebentar por alguma parte: solda o que quiseres, porque quanto mais leis, mais doutrina para erros. Donde o Italiano tirou este provérbio: Fatta la legge, pensata la malizia.

      João de Barros - Ropicapnefma, 1532. Edição INIC, 1983. (p.75).
      No texto o autor (o pecador) fala pelo Entendimento, que, aliado à Vontade e com o apoio do Tempo [História], se confronta com a Razão.

Divisa da Cidade de Coimbra
Gil Vicente
Tragédia de Liberata

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- Livros publicados no âmbito desta investigação, da autoria de Noémio Ramos:

978-989-977499-5 - Gil Vicente, Auto dos Quatro Tempos, Triunfo do Verão - Sagração dos Reis Católicos.
978-989-977498-8 - Gil Vicente, Auto dos Reis Magos, ...(festa) Cavalgada dos Reis.
978-989-977497-1 - Gil Vicente, Auto Pastoril Castelhano, A autobiografia em 1502.
978-989-977496-4 - Gil Vicente, Exortação da Guerra, da Fama ao Inferno.
978-989-977490-2 - Gil Vicente, Tragédia de Liberata, do Templo de Apolo à Divisa de Coimbra.
978-972-990009-9 - Gil Vicente, O Clérigo da Beira, o povo espoliado - em pelota.
978-972-990008-2 - Gil Vicente, Carta de Santarém, 1531 - Sobre o Auto da Índia.
978-972-990007-5 - Gil Vicente, o Velho da Horta, de Sibila Cassandra à "Tragédia da Sepultura".
978-972-990006-8 - Gil Vicente, Auto da Visitação. Sobre as origens.
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(2ª Edição)
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