Auto dos Quatro Tempos

Auto dos Reis Magos

Auto Pastoril Castelhano

Exortação da Guerra

Clérigo da Beira / Escrivães

Liberata / Templo de Apolo

Velho da Horta / Cassandra

Gil Vicente cassandra e velho da horta

Sobre o Auto da Índia

Alma / Papa Júlio II e Erasmo

Gil Vicente Auto da Alma

Visitação / Sobre as Origens

Gil Vicente, sobre as origens

Arte e Dialéctica - Íon Platão

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Gil Vicente O Teatro de Gil Vicente
O Teatro de Gil Vicente
E pera declaração
desta obra santa et cetra...,
quisera dizer quem são
as figuras que virão

por se entender bem a letra.

  ... em  Romagem dos Agravados.
Lendo o Auto da India de Gil Vicente
Ler Erasmo e Gil Vicente

As figuras
nas personagens dos Autos
- os protagonistas -
em Obras


As suas obras dramáticas,
a lista de todos os autos,
em Autos

Datação das obras, dos Autos de Gil Vicente
Gil Vicente, artista da Renascença, reinventor do Teatro
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O Clérigo da Beira - Pedreanes
( ...)
Os Objectos de Clérigo da Beira
Aspectos formais do texto da peça
        Em Clérigo da Beira Gil Vicente varia muito o número de versos das estrofes tornando-se impossível afirmar se ouve cortes da censura. Muitos ou poucos, terão sido cortados alguns versos da peça, quase podemos dar uma certeza de uma estrofe, uma quintilha entre os versos 845 e 846, pois o Epílogo refere-se à gente da Corte portuguesa e, com uma excepção, cuja estrofe tem um verso a mais, em resposta ao mor namorado de Portugal e Castela, o senhor embaixador - do César emperador - o epílogo é composto por coplas (ou enlaces) de duas quintilhas, faltando uma destas, deixando apenas uma estrofe no que devia ser uma copla, quando se refere a Vasco de Fóis.
        Com algumas excepções os versos são de redondilha maior, sempre com rimas muito variadas, predominando as quadras e as quintilhas, mas também há sextilhas. Há ainda prosa, versos isolados e outros agrupamentos de versos na linguagem do Negro. A variação do número de versos (e as quebras) nas estrofes relaciona-se com o ritmo que os actores devem colocar na dicção das personagens, e sobre este tema nada mais nos resta a acrescentar ao que já dissemos em Gil Vicente, Auto da Visitação, Sobre as origens.

O Lugar - Corte ou Feira - Feira do Paço
        Pensamos que o lugar físico (espaço, cenário) onde decorre grande parte da acção da peça será um pátio do palácio, onde entram os vilãos a vender os seus produtos aos senhores do Paço, portanto trata-se de uma feira, é certo que limitada pelos compradores, mas onde os vendedores podem abundar. Gonçalo, quando esconde o chapeirão para que o não vejam e o roubem, como fizeram aos seus produtos, refere-se ao sucedido dizendo: nam me aqueça outra tal feira. E quando Almeida pede ao Duarte dinheiro para pagar ao Gonçalo os produtos roubados, Duarte diz: Eu vendi patos na feira?
        Que esta feira acontece no Paço não há dúvida, tanto pelo diálogo entre os Moços do Paço, Almeida e Duarte, como pelas referências e pelo encaminhamento de Gonçalo, que: Uns marmelos levo aqui / samicas pera vender. // E esta lebre, pera haver / dinheiro dos cortesões (...) Pois, que vás vender à corte. Olha bem polo virote (240) / nam te fies de rascão.
        Que nesta feira do Paço há outros feirantes também não há dúvida, pois o senhor sapateiro está presente, e as feiras são lugar privilegiado dos banqueiros. Ele não estaria se não houvese movimento comercial. Estamos, portanto, perante uma Feira no Paço, ou Feira do Paço. Gil Vicente não o afirma directamente, mas está dito em bom português, pois isso entende-se. E que nesta feira se rouba o Povo ao ponto de o espoliar de toda a mercadoria também está dito em bom português.
        Podemos pois dizer que estamos perante uma continuidade do Auto da Feira, também nessa Feira das Graças Vicente quer comprar uns laparinhos, Tendes alguns laparinhos? (...) Nem coelhos? Então Mateus opta pelos patos: Porém trazeis algum pato? (925). Resolvem então os Moços do Paço nessa peça, ir a outra feira, dizendo Mateus para Vicente: Vamo-nos daqui Vicente. (...) Nunca vi tal feira. [Vicente] Vamos comprar à Ribeira / que anda lá a cousa mais quente. Esta Ribeira pretende designar também o Paço da Ribeira. Vicente e Mateus figuram no Auto da Feira estes mesmos Almeida e Duarte, Carlos e Fernando de Habsburgo.

      (...)

Gonçalo - Povo, o Protagonista
        Gonçalo, representando o Povo (...), vem executar um serviço a outros, para o qual não tem preparação, é um ratinho que desce ao sopé da serra. É um moço de espírito vivo, bem sei o que hei de fazer, mas que não conhece as manhas do Clérigo (Papado), nem do Paço (Império), - e rascões que aves são? / Samicas são alguns bichos; (...) nem se dá conta da situação política e social (domínio político da Europa) que se vive na época e, por isso, está sempre a ser enganado por todos os políticos e pretendentes a governar. Gonçalo acaba sem nada, quase nu que até a roupa lhe levaram, tudo o que tinha lhe foi roubado. Por fim, quer acreditar em adivinhos (Pedreanes, a nova Igreja), obedecendo aos seus vaticínios, a ponto de o convencerem que tem de casar com um traste qualquer. É de facto a figura do Povo em geral, seja de Itália, seja da Alemanha, seja de Portugal ou de qualquer outro lugar.
        O que se destaca na caracterização da figura é o confronto de Gonçalo com a Corte, ou a sua feira (a feira da Corte). Primeiro pelos avisos do Clérigo, depois pelos acontecimentos na feira, pelos comentários da personagem e, depois no regresso de reencontro com o Clérigo, de novo, a questão de Gonçalo estar deslocado na feira e de ser sempre enganado e roubado. O ratinho entra num meio que não domina e onde a maioria dos presentes (figurantes) desdenham dele.
       Gonçalo, o ratinho, na peça é um vilão, um homem livre quando desce ao povoado, deixou o serviço de alguém e entrou ao serviço de seu pai (sociedade, grupo social, família a que pertence) por decisão sua.
        E afinal o que é que o Povo tinha de seu que lhe roubaram ou que entregou?
Lebre: a Liberdade que lhe foi roubada, mas que não serviu para nada àqueles que lha roubaram, porém, depois de perdida, foi guardada por alguém que a conserva às escondidas em casa de um alfaiate.
Capões: os “eunucos”, os elementos que o povo fornece para a constituição das guardas de armas, isto é, o pessoal que integra as guardas “pretorianas”, servidoras dos grandes senhores que dominam o governo e o Estado. Na versão actual são as polícias de intervenção. Por isso, na peça, logo após serem roubados ao Povo, os capões estão a ser cozinhados, aproveitados por quem os roubou.
Marmelos: os mercenários contratados, prontos a entrar em acção por quem se apoderou deles seleccionando-os de entre o Povo.
Patos: os mobilizados à força para os exércitos, pois se acaso Gonçalo levasse patos à feira, para os vender, também estes lhe teriam sido roubados, como diz o Clérigo. Esta é uma referência directa ao Auto da Feira.
Limões: lava-os para os comer, são os mantimentos para as tropas, que servem para aguçardes os dentes…
Bolsa e roupas: o dinheiro e todas as suas protecções, bens e haveres pessoais.

Clérigo - Papa Clemente VII
Francisco - Rei de França, Francisco I
       O Papa Clemente VII, o Clérigo, e o rei de França, o filho Francisco, enfrentam a luta para libertar a Itália e a Igreja dos espanhóis, de Carlos V e da banca alemã, tentando libertar - conquistando - a Itália desde Milão a Nápoles.
       Francisco diz que o Clérigo vai celebrar o acordo de guerra, a missa da festa, em pessoa e, fica mal se for com a coroa por fazer, como quem não faz a barba antes de um pedido de casamento (de celebrar uma aliança), seguindo-se a caça aos soldados: a caça dos coelhos. Que se apresente dignamente, não vá a outra gente (cabreira), avaliá-lo mal, sem a majestade que lhe é merecida, e tente depor o Papa (...).

      Filho:
            Vós haveis de celebrar
            missa da festa, em pessoa,
            e não fazeis a coroa
            antes que vamos caçar.
              
            Pois, pai! Não haveis de olhar
      (5)
            que sois clérigo da Beira!
            Porque já a gente cabreira
            em tudo quer atentar...
      
        A ideia de pôr a personagem Francisco como filho do Clérigo, surge ao autor directamente do mundo real, e é já um assunto sobejamente tratado na história da literatura portuguesa, constitui uma referência a Francisco Sá de Miranda que era filho de clérigo, o beneficiado Gonçalo Mendes de Sá, e portanto Gil Vicente estabelece uma relação entre o Francisco, personagem da peça, e Francisco Sá de Miranda, isto é, entre o primeiro (o filho) e o clérigo, ou entre o segundo e a Beira (Itália), de onde chegou recentemente Sá de Miranda, tendo este dúvidas se lá deve voltar, ou se lá voltando, não seria melhor por lá ficar. Isto também para introduzir na peça o verdadeiro figurado no filho do Clérigo da Beira, Francisco I, o rei de França que, como aliado do Papa Clemente VII, há tempos que anda num vai e vem em Itália. E sobretudo para identificar o lugar e o tempo onde se desenrola a acção dramática, a Itália e Alemanha (Beira), o Sacro Império Romano Germânico. Mais exactamente o lugar está no centro de Itália.
        Na Igreja católica os coelhos simbolizaram (simbolizam) os novos fiéis que hão de ser baptizados e a caça aos coelhos a procura e angariação de fiéis. Os coelhos, pela rápida reprodução, constituem uma das simbologias da Igreja para representar o seu ideal de novos conversos. A diferença, que reside na peça de teatro, é de que os coelhos que pretendem caçar são para a guerra, para servirem nas forças militares do Papa Clemente VII.
       Na situação política da época, a preferência expressa pelo Clérigo (Clemente VII) era de que o filho (Francisco I) estivesse na Corte imperial, que fosse ele o imperador, por isso surge a crítica relativa à situação da Corte em Portugal, porque lá não fazem bem / senão a quem menos faz… Mas, para o Papa Clemente VII, Francisco I também não é muito boa peça, serve-lhe agora, como uma ajuda aos italianos, na tentativa de expulsar os espanhóis:

      (Clérigo)
            Outras manhas tem assaz
            cada uma muito boa
            nunca diz bem de pessoa    
(55)
            nem verdade nunca a traz.
           
            Mexerica que por nada
            rebolverá sam Francisco
            que pera a corte é um visco
            que caça toda a manada.    
(60)

        O diálogo inicial entre o Clérigo e o filho, com a reza das matinas, constitui um extenso prólogo da peça, onde o autor especifica grande parte dos elementos que servem de suporte ao mythos, o lugar, o espaço e tempo da acção, introduzindo ainda a situação geradora do conflito que se desenvolve na acção dramática, pelas referências aos confrontos sociais, políticos e militares que então se vinham desenrolando em Itália. Todavia, antes de procedermos à sua análise, e a fim de facilitar a nossa exposição, devemos especificar alguns dos elementos que serviram ao autor da peça para a figuração da situação política na Europa.

         (...)

        É possível que os senhores de Portugal, agora envolvidos nos amores e nos dotes, sejam aqui citados para completar a lista daqueles que já foram citados no início do ano de 1526 em Templo de Apolo, e antes em Frágua do Amor. Ou que agora, em Pedreanes o autor se refira sobretudo àqueles que, em termos políticos, mais apoiam o imperador na guerra que se prepara, ou os mais responsáveis pelo casamento e pelo dote de Isabel de Portugal.
        Após esta análise descritiva e, atendendo ao que já lemos e descrevemos da peça O Templo de Apolo, conjugando com as conclusões da análise do Velho da Horta onde todos os citados estão envolvidos com o tema (as Arte plásticas e a poesia) da peça, o mecenato, a própria produção poética e até com o seu mythos e enredo (Mancias e os desafios do amor cortês, sobre tenção, e o Cancionero General de Hernando del Castillo), devemos concluir que aqueles que são citados por Gil Vicente, em cada peça, têm ou tiveram algo directamente a ver com a acção dramática, e portanto, com o mythos: têm ou tiveram alguma intervenção, ou nas causas ou nas consequências, da situação social e política do momento histórico figurado na peça em que são apresentados em referências várias.
        Então não será por mera cortesia, e nunca por acaso, que Gil Vicente se refere nas suas peças a pessoas do mundo real, a gente da Corte, do Clero ou da governação do país e, nesta peça, o Negro expõe para si a questão do pagamento do seu casamento que, afinal, constitui uma referência simbólica ao casamento de Carlos V e Isabel. De modo mais subtil, também uma crítica em relação à religião, pois pela conveniência em obter o apoio dos príncipes luteranos na guerra contra o Papa, o imperador Carlos requer da dieta Alemã de Spira a suspensão do Édito de Worms, anulando o mandado de captura a Lutero, de perseguição aos luteranos e à sua doutrina. Aqui nesta peça, também o Gonçalo de Portugal está contribuindo para a guerra que se prepara, para o pagamento dos lansquenetes, etc., depois de ter financiado as ambições do imperador por um Ceptro Omnipotente alcançado por um Poderoso Vencimento para o domínio de um Mundo mais alargado - Plus Ultra - neste seu Tempo Glorioso.

        (...)

        Resumindo: em Clérigo da Beira, o autor apresenta em primeiro lugar a aliança entre o Papa e Francisco I de França, sempre sublinhando as questões financeiras nas suas matinas, figurando as bases da acção, o seu lugar e tempo, depois, a entrada de Gonçalo na acção para participar na feira, dirigindo-se (1) à feira do Paço (lugar privilegiado dos banqueiros, mercadores), assinalando na peça o lugar onde os roubos hão de acontecer, com o sapateiro e outros a assistir, (2) depois, já no local, mostra quem lhe rouba a liberdade, e como, pelo assalto, é espoliado de todos os seus bens pela actividade da gente do Paço, pelos líderes do Sacro Império, e (3) como se não bastasse, Gonçalo confronta-se com um enorme arrazoado de doutrinas orientadas pelo Negro, que vem ao seu encontro (domínio ideológico) com recomendações, mas que acaba por lhe roubar tudo o resto deixando-o completamente em pelota. Por fim, no último episódio, volta a sublinhar o poder da banca italiana (1) com Veneza, e Florença manietada pelos Medici e por Pedreanes; (2) as alianças do poder político imperial e o seu financiamento em Portugal; e (3) a referência à campanha ideológica em curso com Brezeanos.

(...)



Datação da obras de Gil Vicente
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(c) 2008 - Sítio dedicado ao Teatro de Gil Vicente - actualizado com o progresso nas investigações.
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- Livros publicados no âmbito desta investigação, da autoria de Noémio Ramos:

978-989-977499-5 - Gil Vicente, Auto dos Quatro Tempos, Triunfo do Verão - Sagração dos Reis Católicos.
978-989-977498-8 - Gil Vicente, Auto dos Reis Magos, ...(festa) Cavalgada dos Reis.
978-989-977497-1 - Gil Vicente, Auto Pastoril Castelhano, A autobiografia em 1502.
978-989-977496-4 - Gil Vicente, Exortação da Guerra, da Fama ao Inferno.
978-989-977490-2 - Gil Vicente, Tragédia de Liberata, do Templo de Apolo à Divisa de Coimbra.
978-972-990009-9 - Gil Vicente, O Clérigo da Beira, o povo espoliado - em pelota.
978-972-990008-2 - Gil Vicente, Carta de Santarém, 1531 - Sobre o Auto da Índia.
978-972-990007-5 - Gil Vicente, o Velho da Horta, de Sibila Cassandra à "Tragédia da Sepultura".
978-972-990006-8 - Gil Vicente, Auto da Visitação. Sobre as origens.
978-972-990005-1 - Gil Vicente e Platão - Arte e Dialéctica, Íon de Platão.
978-989-977494-0 - Gil Vicente, Auto da Alma, Erasmo, o Enquiridion e Júlio II... 
(2ª Edição)
978-972-990004-4 - Auto da Alma de Gil Vicente, Erasmo, o Enquiridion e Júlio II...

- Outras publicações:
978-972-990000-6 - Francês - Português, Dicionário do Tradutor. - Maria José Santos e A. Soares.
978-972-990002-3 - Os Maios de Olhão e o Auto da Lusitânia de Gil Vicente. - Noémio Ramos.



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