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Preâmbulo de Gil Vicente
Preâmbulo - carta a João III de Portugal

O texto do Preâmbulo de Gil Vicente que integra a Copilaçam de 1562, tem a data provável de 1536, e constitui uma pequena grande obra de retórica.

Este preâmbulo não se concretizou. A sua Obra Completa não foi (então) ainda publicada! Mas, será verdade que Gil Vicente não tenha completado o trabalho a que se propôs? Pois, o facto é que ele próprio afirma: Por cujo serviço trabalhei a compi­lação delas com muita pena de minha velhice e glória de minha vontade.

Teria escrito a carta – Preâmbulo – antes de realizar o trabalho? Ou teria mesmo realizado o seu trabalho de compilação, como afirma, e escrito a carta a esse propósito para entregar a Copilaçam ao Rei, então chefe da Inquisição – por­que o Preâmbulo é uma carta – e, se de facto completou o trabalho, o que pelo con­teúdo da carta nos parece ter acontecido, e se os seus textos foram entregues ao rei para depois seguirem para impressão?

 [Noémio Ramos, in Gil Vicente e Platão - Arte e Dialéctica, Íon...]
     Os livros das obras que escritas vi sereníssimo senhor, assim em metro como em prosa, são tão florescidas de cientes matérias, de graciosas invenções, de doces elo­quências e elegâncias, que temendo a pobreza de meu engenho – porque nasceu e vive sem possuir nenhuma destas – determinava deixar minhas misérrimas obras por imprimir, porque os antigos e modernos não deixaram cousa boa por dizer, nem invenção linda por achar, nem graça por descobrir. Assim que para passar seguro da pena que minha ignorância padecer não escusa, me fora formosa guarida não dizer senão o que eles disseram, ainda que eu ficasse como eco – nos vales – que fala o que dizem, sem saber o que diz. 
     Porém querendo eu no presente preâmbulo ajudar-me do seu costumado estilo em querer louvar as excelências de Vossa Alteza como eles fazem aos senhores a quem suas obras endereçam… Que farei?
     Sendo certo que ainda que fosse em mim só a sua oratória tão fecunda como em todos eles e me fosse transpassado o espírito de David, não presumiria escrever de Vossa Alteza a mínima parte de sua magnífica bondade, de sua nobilíssima condi­ção, de sua discreta mansidão, do perfeito zelo de sua justiça, da sua paz, da sua guerra, da sua graça, gravidade, conselho, sabedoria, liberalidade, prudência, e finalmente do seu Cristianíssimo firmamento.
     Outrossim querendo navegar pela rota do seu exórdio deles, pedindo a Vossa Alteza favor e amparo, para que minha enferma escrita não seja ferida de línguas danosas… Parece-me injusta oração pedir tão alto esteio para tão baixo edifício, quanto mais que ainda que digno fora de tão nobre amparo, tenho considerado que Cristo filho de Deus sob amparo de poderio eterno do Padre e todos seus bem aventurados Santos não passaram por esta vida tão livres, que dos malditos detrac­tores não fossem julgadas suas divinas obras, por humanas leviandades; sua santa doutrina, por máxima ignorância; sua manifesta bondade, por falsa malícia; sua santíssima graça, por sub-reptício engano; sua excelsa abstinência, por vil hipocri­sia; sua celeste pobreza, por terreno vício.

     Pois rústico peregrino de mim, que espero eu? Livro meu, que esperas tu? Porém te rogo que quando o ignorante malicioso te repreender, que lhe digas: Se meu Mestre aqui estivera, tu calaras.

     Finalmente que por escusar estas batalhas e por outros respeitos, estava sem propósito de imprimir minhas obras se Vossa Alteza mo não mandara, não por serem dignas de tão esclarecida lembrança, mas Vossa Alteza haveria respeito a serem muitas delas de devoção, e a serviço de Deus endereçadas, e não quis que se perdessem, como quer que cousa virtuosa por pequena que seja não lhe fica por fazer… Por cujo serviço trabalhei a compilação delas com muita pena de minha velhice e glória de minha vontade, que foi sempre mais desejosa de servir a Vossa Alteza que cobiçosa de outro nenhum descanso.
 
Texto da carta preâmbulo
 
   
   
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