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Primeiramente, entram três pastoras: a primeira per nome Silvestra lei de natureza; a segunda lei de escritura per nome Hebrea; a terceira lei de graça per nome Veredina. Foi representado na era do Senhor de mil quinhentos e trinta e quatro anos. [ Prólogo ] Entra Silvestra lei de natureza, cantando: |
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Silvestra: Serra que tal gado tem não na subirá ninguém. (falado) Eu sam lei de natureza e hei per nome Silvestra das gentes primeira mestra que houve na redondeza. Dos gentios sam firmeza e por pastora me tem. (canta) Nam a subirá ninguém serra que tal gado tem. (falado) Assi que ando a pastorar cem mil bandos de veados porque os gentios são gados mui esquivos de guardar. E tão bravos de apriscar que a serra que os tem. (canta) Nam a subirá ninguém serra que tal gado tem. (falado) Quando os quero assessegar logo cada um tresmonta de um só Deos não fazem conta senão correr e saltar. Todo seu bem é honrar diversos deoses que tem. Com que lágrimas me vem. (canta) Serra que tal gado tem não na subirá ninguém. Entra Hebrea lei de escritura e diz: |
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Hebrea: Que gado guardas aqui nesta fragosa espessura? Silvestra: Guardo per lei de natura meu gado mas vejo em ti que tu és lei de escritura. Hebrea: Sam pastora de Judea nacida em Monte Sinai e o meu nome é Hebrea. Silvestra: E o teu gado onde vai? Hebrea: Sempre pace em mesa alhea. E sabes que gado é? Tudo raposos e lobos e eu te dou minha fé que é a mais falsa relé que há i nos gados todos. Nunca me ouvirão cantar que meu gado é tão erreiro que sempre o verás andar dum pecar em outro pecar de cativeiro em cativeiro. Que cante nam há porquê com leones et dracones nem prazer nunca me vê e se uma hora canto é Super flumina Babilonis. Depois vou-me a Jeremias e lamentamos a par e os prantos de Isaías estas são as alegrias que meu gado anda a buscar. Silvestra: Nam menos quebre os sentidos com meus veados diversos. Hebrea: Isso são gados perdidos os meus foram escolhidos e fezeram-se perversos. Os patriarcas primeiros eram gados celestiais ovelhas santos carneiros e os profetas cordeiros e os de agora lobos tais. Pois tem em mim uma pastora que nunca foi outra tal. Silvestra: Nego eu essa por agora. Hebrea: Oh se tu quisesses ora fazer-te minha igual. [ ...ada] ...................................... [ censurado, 1562 ] Silvestra: Mas milhor em terdes grandeza. Hebrea: Cal'-te que não dizes nada que eu sam per Deos espirada e tu pola natureza. Silvestra: Parece esta que cá vem lei de graça santa e benta. Hebrea: Ela assi o representa segundo a graça que tem mas de ti valho eu setenta. Vem a lei de graça per nome Veredina e diz cantando: |
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Veredina: Serranas nam hajais guerra que eu sam a flor desta serra. (falado) Oh que malhada e que gado e que tempo e que pastora por sempre seja louvado um só Deos que no céu mora. Ele me enviou agora das alturas cá em terra (canta) pera ser flor desta serra serranas nam hajais guerra. (falado) Ovelhas e cordeirinhos é o meu gado maior muito humildes e mansinhos e pacem polos caminhos. E montes do redentor ele é sumo pastor. (canta) E vós escusai a guerra que eu sou a flor desta serra. (falado) Outra mais alta pastora anda na serra preciosa emperatrix gloriosa principal minha senhora. Esta dos anjos se adora santa rainha na terra. (canta) E me fez frol desta serra serranas nam hajais guerra. (falado) Eu repasto suas cordeiras... Virgens e marterizadas que leixam frescas ribeiras e as mundanas ladeiras por serem sacrificadas. Vós outras sois já acabadas por demais é vossa guerra. (canta) Que eu sam a flor desta serra serranas nam hajais guerra. (falado) Nam é já tempo de vós porque o tendes já comprido e se abriram os céos e lembrou-se o senhor Deos do que tinha prometido e compria inteiramente como eternal verdade com Abraão sua semente no mesmo tempo presente porque foi sua vontade. Hebrea: Como? Vindo é o messias? Veredina: Já veio e anda pregando insinando e declarando as divinas profecias. Hebrea: Isso estava eu esperando. Veredina: Assi que a lei de graça há de ter todo o cuidado pastora mor de seu gado isto é per força que eu faça pois vosso giro é passado. |
| [ Prepara a entrada das personagens... ] |
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Na somana que passou pera mais me confirmar Satanás mesmo o tentou polas vias que levou com Adão no seu pomar. E ficou tão comprendido do alto saber eterno ei-lo vem que anda fogido porque há de ser escozido dos algozes do inferno. |
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Datação e cronologia das peças de teatro, dos autos de Gil Vicente |
| Antes de expor a cronologia das peças e a sua datação aproximada, convém lembrar alguns pormenores que são indispensáveis para compreender alguns dos erros mais habituais, alguns na própria origem, cometidos por quem terá escrito a didascália inicial na edição outros na sua leitura posterior. |
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Assim, até ao ano de 1556, em Portugal, o início do ano não tinha uma data certa, podia considerar-se o seu início em 25 de Março, pelo ano da anunciação, e este era o preferido pela Igreja... Neste caso, o dia 24 de Março de 1534 era seguido pelo dia 25 de Março de 1535; o mês de Março ficava distribuído pelos dois anos; os meses de Janeiro e Fevereiro, assim como a maior parte do mês de Março, ficavam no fim de cada ano, e não no início. Todavia, outras datas para marcar o início do ano estavam também em uso, assim como: pelo nascimento, em que o dia 25 de Dezembro marca o início do ano; pela circuncisão, que era também o início na calendário Juliano, com início a 1 de Janeiro… pela anunciação, 25 Março (9 meses antes do nascimento), que era também o início do ano económico com a Primavera; Embora o dia de Ano Novo se comemorasse em 1 de Janeiro, na prática, era comum a mudança de ano efectuar-se a 25 de Março, com o início do ano económico, ou mesmo a 1 de Abril (como em Inglaterra até há bem pouco tempo). Em Portugal, como em alguns outros países da Europa, só em 1556 é que o ano se passou a iniciar, obrigatoriamente, em 1 de Janeiro, pois, embora isso mesmo já tivesse sido decretado pelo rei D. João I, na prática continuou-se a usar em sectores diferentes, o início do ano em datas diferentes. Em Veneza, esta mudança obrigatória para todos, deu-se em 1522, mas noutros países só muito mais tarde. |
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Esta alteração não está relacionada com a adopção do calendário Gregoriano, que se realizou em 1582, e que foi uma alteração para aferição do calendário em relação às estações do ano, que então correspondeu a um salto: ao dia 4 de Outubro de 1582 seguiu-se o dia 15 de Outubro de 1582, o objectivo foi acertar o calendário em relação ao número de dias (horas, segundos), à medida mais exacta do ano, para recolocar as estações do ano no seu lugar próprio... |
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Tornam-se assim mais evidentes os erros que podem ter derivado, primeiro da datação inicial, e depois, quando esta não tinha sido referenciada, pela datação então colocada em 1561 ou 62, além da memória das pessoas que tiveram de colocar datas, 25 anos ou quase sessenta anos mais tarde. A agravar ainda, supomos alguma confusão que possa ter havido entre os autos, como Festa e Feira, ou na identificação de Exortação, Fadas, Fama, e outros… Todavia, há que considerar que além das datas haverá alguns erros também na identificação das localidades, ou nas circunstâncias em que os autos se realizaram... Considerar apenas como erros a datação impressa, como terá acontecido, considerar a data errada por se considerarem correctas as circunstâncias descritas (porquê?), pode ser ainda pior erro. O curto texto de início de cada obra, que descreve as motivações e circunstâncias da encenação, na maioria dos casos, mais parece ter sido criado pela pesquisa do editor (Luís Vicente?), pela leitura da peça, do que pelo autor. |
