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O Teatro de Gil Vicente
E pera declaração
desta obra santa et cetra...,
quisera dizer quem são
as figuras que virão

por se entender bem a letra.

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Gil Vicente, artista da Renascença, reinventor do Teatro
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Sobre o Auto da Cananeia
Auto da Cananeia
em data incerta, já em 1535.


      No Auto da Cananeia Gil Vcente figura na acção dramática uma visão das causas, do decorrer e das consequências previsíveis na sangrenta Nova Jerusalém - a teocracia de Münster - com a intervenção também brutal e sangrenta da aliança de Carlos V (da Inquisição) com os príncipes protestantes, logo após a entrada na cena política do Papa Paulo III...

      A data que consta no Auto - 1534 - estará correcta para a época, conforme a análise que fizemos em Datação e cronologia das peças de Teatro de Gil Vicente (aqui à esquerda nesta página).
      O Auto da Cananeia segue-se a Mofina Mendes no natal de 1534. Cananeia terá sido criado nos dois meses seguintes de 1534 (datado pela anunciação), e representado antes de 25 de Março de 1534 (actual 1535).

      Contudo, podemos colocar a hipótese deste Auto ainda poder ter uma data posterior, bem dentro de 1535... Os estudos mais completos o dirão.
      Por agora deixamos aqui o prólogo do Auto, cujo conteúdo genérico (como argumento figurado) formula o ponto de partida do mythos desta peça de Gil Vicente.

Primeiramente, entram três pastoras:
      a primeira per nome Silvestra lei de natureza;
      a segunda lei de escritura per nome Hebrea;
      a terceira lei de graça per nome Veredina.

Foi representado na era do Senhor de
mil quinhentos e trinta e quatro anos.


[ Prólogo ]

Entra Silvestra lei de natureza, cantando:

Silvestra:
    Serra que tal gado tem
        não na subirá ninguém.


(falado)
Eu sam lei de natureza
                  e hei per nome Silvestra
                  das gentes primeira mestra
                  que houve na redondeza.

                  Dos gentios sam firmeza
                  e por pastora me tem.

(canta) 
Nam a subirá ninguém
        serra que tal gado tem.


(falado)
Assi que ando a pastorar
                  cem mil bandos de veados
                  porque os gentios são gados
                  mui esquivos de guardar.

                  E tão bravos de apriscar
                  que a serra que os tem.

(canta) 
Nam a subirá ninguém
        serra que tal gado tem.


(falado)
Quando os quero assessegar
                  logo cada um tresmonta
                  de um só Deos não fazem conta
                  senão correr e saltar.

                  Todo seu bem é honrar
                  diversos deoses que tem.

                  Com que lágrimas me vem.


(canta) 
Serra que tal gado tem
        não na subirá ninguém.



Entra Hebrea lei de escritura e diz:
  

Hebrea:
   Que gado guardas aqui
                  nesta fragosa espessura?

Silvestra:     Guardo per lei de natura
                  meu gado mas vejo em ti
                  que tu és lei de escritura.


Hebrea:        Sam pastora de Judea
                  nacida em Monte Sinai
                  e o meu nome é Hebrea.

Silvestra:     E o teu gado onde vai?
Hebrea:        Sempre pace em mesa alhea.

                  E sabes que gado é?
                  Tudo raposos e lobos
                  e eu te dou minha fé
                  que é a mais falsa relé
                  que há i nos gados todos.

                  Nunca me ouvirão cantar
                  que meu gado é tão erreiro
                  que sempre o verás andar
                  dum pecar em outro pecar
                  de cativeiro em cativeiro.

                  Que cante nam há porquê
                  com leones et dracones
                  nem prazer nunca me vê
                  e se uma hora canto é
                  Super flumina Babilonis.

                  Depois vou-me a Jeremias
                  e lamentamos a par
                  e os prantos de Isaías
                  estas são as alegrias
                  que meu gado anda a buscar.


Silvestra:     Nam menos quebre os sentidos
                  com meus veados diversos.

Hebrea:        Isso são gados perdidos
                  os meus foram escolhidos
                  e fezeram-se perversos.

                  Os patriarcas primeiros
                  eram gados celestiais
                  ovelhas santos carneiros
                  e os profetas cordeiros
                  e os de agora lobos tais.

                  Pois tem em mim uma pastora
                  que nunca foi outra tal.

Silvestra:      Nego eu essa por agora.
Hebrea:        Oh se tu quisesses ora
                   fazer-te minha igual.


                   [ ...ada] ......................................  [ censurado, 1562 ]
Silvestra:     
Mas milhor em terdes grandeza.
Hebrea:         Cal'-te que não dizes nada
                   que eu sam per Deos espirada
                   e tu pola natureza.


Silvestra:      Parece esta que cá vem
                   lei de graça santa e benta.

Hebrea:         Ela assi o representa
                   segundo a graça que tem
                   mas de ti valho eu setenta.



Vem a lei de graça per nome Veredina e diz cantando:
  

Veredina:     Serranas nam hajais guerra
        que eu sam a flor desta serra.


(falado)
Oh que malhada e que gado
                  e que tempo e que pastora
                  por sempre seja louvado
                  um só Deos que no céu mora.

                  Ele me enviou agora
                  das alturas cá em terra

(canta) 
pera ser flor desta serra
        serranas nam hajais guerra.


(falado)
Ovelhas e cordeirinhos
                  é o meu gado maior
                  muito humildes e mansinhos
                  e pacem polos caminhos.

                  E montes do redentor
                  ele é sumo pastor.

(canta) 
E vós escusai a guerra
        que eu sou a flor desta serra.


(falado)
Outra mais alta pastora
                  anda na serra preciosa
                  emperatrix gloriosa
                  principal minha senhora.

                  Esta dos anjos se adora
                  santa rainha na terra.

(canta) 
E me fez frol desta serra
        serranas nam hajais guerra.


(falado)
Eu repasto suas cordeiras...

                  Virgens e marterizadas
                  que leixam frescas ribeiras
                  e as mundanas ladeiras
                  por serem sacrificadas.

                  Vós outras sois já acabadas
                  por demais é vossa guerra.

(canta) 
Que eu sam a flor desta serra
        serranas nam hajais guerra.



(falado) Nam é já tempo de vós
                  porque o tendes já comprido
                  e se abriram os céos
                  e lembrou-se o senhor Deos
                  do que tinha prometido

                  e compria inteiramente
                  como eternal verdade
                  com Abraão sua semente
                  no mesmo tempo presente
                  porque foi sua vontade.


Hebrea:        Como? Vindo é o messias?
Veredina:     Já veio e anda pregando
                  insinando e declarando
                  as divinas profecias.

Hebrea:        Isso estava eu esperando.

Veredina:      Assi que a lei de graça
                  há de ter todo o cuidado
                  pastora mor de seu gado
                  isto é per força que eu faça
                  pois vosso giro é passado.

 
[ Prepara a entrada das personagens... ]

                  Na somana que passou
                  pera mais me confirmar
                  Satanás mesmo o tentou
                  polas vias que levou
                  com Adão no seu pomar.

                  E ficou tão comprendido
                  do alto saber eterno
                  ei-lo vem que anda fogido
                  porque há de ser escozido
                  dos algozes do inferno.

Texto do Auto da Cananeia

(c) 2008 - Sítio dedicado ao Teatro de Gil Vicente - actualizado com o progresso nas investigações.
GrammarNet

- Livros publicados no âmbito desta investigação, da autoria de Noémio Ramos:

978-989-977499-5 - Gil Vicente, Auto dos Quatro Tempos, Triunfo do Verão - Sagração dos Reis Católicos.
978-989-977498-8 - Gil Vicente, Auto dos Reis Magos, ...(festa) Cavalgada dos Reis.
978-989-977497-1 - Gil Vicente, Auto Pastoril Castelhano, A autobiografia em 1502.
978-989-977496-4 - Gil Vicente, Exortação da Guerra, da Fama ao Inferno.
978-989-977490-2 - Gil Vicente, Tragédia de Liberata, do Templo de Apolo à Divisa de Coimbra.
978-972-990009-9 - Gil Vicente, O Clérigo da Beira, o povo espoliado - em pelota.
978-972-990008-2 - Gil Vicente, Carta de Santarém, 1531 - Sobre o Auto da Índia.
978-972-990007-5 - Gil Vicente, o Velho da Horta, de Sibila Cassandra à "Tragédia da Sepultura".
978-972-990006-8 - Gil Vicente, Auto da Visitação. Sobre as origens.
978-972-990005-1 - Gil Vicente e Platão - Arte e Dialéctica, Íon de Platão.
978-989-977494-0 - Gil Vicente, Auto da Alma, Erasmo, o Enquiridion e Júlio II... 
(2ª Edição)
978-972-990004-4 - Auto da Alma de Gil Vicente, Erasmo, o Enquiridion e Júlio II...

- Outras publicações:
978-972-990000-6 - Francês - Português, Dicionário do Tradutor. - Maria José Santos e A. Soares.
978-972-990002-3 - Os Maios de Olhão e o Auto da Lusitânia de Gil Vicente. - Noémio Ramos.



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© Noémio Ramos
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