



















| Madre Igreja Santa = Basílica de São João de Latrão (em Roma), Sede do Bispo de Roma, o Papa, onde de encontra uma tábua da madeira do altar de São Pedro, a Mesa e a Cadeira do Papa, a Catedra Romana. Só o Papa diz missa nesse altar e se senta nessa Cadeira. |
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No Auto da Alma, o Papa Júlio II é colocado no palco figurado por Gil Vicente como típico soldado ou cavaleiro cristão, com seu o Enquiridion, “que nunca hás-de largar da mão”, fazendo por seguir as suas regras, seguindo o seu caminho para a clara luz da vida espiritual, ou fazendo o caminho que leva sem rodeios a Cristo, parando por várias vezes para rezar em pensamento (interiorizado), pois hás-de levantar os teus pensamentos ao céu, de onde te há-de vir a ajuda. Mas haverás de levantar também as mãos ao alto... (Em itálico as palavras de Erasmo no Enquiridion). A Alma retirada do Enquiridion, definida no capítulo vii, composta por uma parte carnal, o Diabo, e uma parte espiritual o Anjo, sendo a parte carnal a mulher que há em todos, o pecado, e a espiritual a celestial, que vai para onde veio. Ambos fazem parte de si mesma, devem ser máscaras do protagonista, pois a Alma enfrenta um combate consigo própria... A Alma está continuamente a ser solicitada por uma e outra parte, mas ela é livre de se inclinar pela parte que quiser (Erasmus). Com memória, livre entendimento, vontade libertada e livre arbítrio, a Alma está capacitada para tomar e fundamentar as decisões mais adequadas. Quanto à alma, somos tão capazes do divino que podemos mesmo ultrapassar a natureza dos anjos e unirmo-nos em unidade com Deus. De maneira que se não estivera unido ao corpo, seria algo divino... (Erasmus). [Anjo] Alma humana formada, / de nenhuma cousa feita, / mui preciosa, / de corrupção separada, / e esmaltada / naquela frágua perfeita, gloriosa... (Vicente). A alma recordando-se da sua linhagem celestial tende a subir com todas as suas forças, e luta contra a sua morada terrena... (Erasmus). [Anjo] Planta sois e caminheira, / que ainda que estais, vos is / donde viestes... (Vicente). Dado que somos peregrinos do mundo visível, não nos podemos deter em nenhum lugar… (Erasmus). [Anjo] Andai prestes! // Alma bem aventurada / dos anjos tanto querida, / não durmais / um ponto, não esteis parada… (Vicente). Mas este adversário ataca a tua alma imortal, (...) recorda-te que a vitória não chegará sem um esforço da tua parte... (Erasmus). [Alma] Tende sempre mão em mim, / porque hei medo de empeçar / e de cair. [Anjo] Para isso sou, e a isso vim, / mas em fim / cumpre-vos de me ajudar / a resistir. (Vicente). Veneras os santos e gostas de tocar as suas relíquias, mas desprezas a melhor que eles nos deixaram, isto é, os seus exemplos de vida santa. (…) Santo Agostinho já antes de se fazer cristão desprezava o dinheiro, tinha como vãs as honras mundanas, era indiferente à glória. (Erasmus). [Anjo] Não vos ocupem vaidades, / riquezas, nem seus debates, / olhai por vós, / que pompas, honras, herdades / e vaidades, / são embates e combates / para vós... (Vicente). (...) E assim se apresenta no Auto a caracterização da Alma e do Anjo até ao fim da cena, e logo depois, com a entrada do Diabo, prossegue em novas cenas, de modo a completar a figuração da ideologia (da imagem) criada por Erasmus para significar a luta do homem consigo próprio, ou em Gil Vicente as reflexões elaboradas para a acção do Auto da consciência humana. De seguida, acompanhando a caracterização da Alma, com a identificação da figura e da ideologia subjacente na figuração, Gil Vicente passa à figuração dos acontecimentos que envolvem a figura representada na Alma. E, apresenta-os do ponto de vista da ideologia do Enquiridion, como pecados… É assim que nos surge a exaltação da vaidade pelas primeiras grandes iniciativas públicas do Papa… Pois, não é em vão que Júlio II cria o Jardim das Estátuas no Vaticano, não é em vão que procura Miguel Ângelo para realizar a sua estátua (e o que logo virá a seguir), não é em vão que manda construir a nova Basílica de São Pedro, não é em vão que organiza as suas Entradas, ou os grandes festejos de exaltação pública, tal como o lançamento da primeira pedra da Basílica: Não são embalde os haveres, / não são embalde os deleites / e fortunas, / não são debalde os prazeres / e comeres, / tudo são puros afeites / das criaturas. Numa primeira parte do Auto, até ao primeiro contacto da Alma com a Madre Igreja Santa, até ao diálogo dos dois diabos, tanto a linguagem como os conceitos utilizados na acção dramática, como no seu texto, são os expostos por Erasmus, invertendo-se o seu sentido, quando são apresentados nas falas do Diabo... Os desejos do corpo, incluem portanto todos os desejos deste mundo: O que a vontade quiser / quanto o corpo desejar / tudo se faça / zombai de quem vos quiser / repreender / querendo-vos marteirar / tão de graça. E ao aceitar o que o corpo desejou e a vontade quis, sobressai a mulher (de parecer), que há nesse Adão, que há em todas as Almas - sublinhemos que a personagem de Alma não é uma figura feminina - pois trata-se da visão do Homem que Erasmus deixou no Enquiridion. Como referimos, pelos chapins de Valença figura a vitória sobre César Bórgia, como figura as cometidas do Papa em 1506 em Perugia e Bolonha, daqui para ali, as suas entradas triunfais, e de lá para cá no regresso a Roma: Uns chapins haveis mister, / de Valença, majestosos! / Ei-los aqui... / Agora estais vós mulher / de parecer... / Ponde os braços presumptuosos, / isso si! // Passeai-vos mui pomposa... / Daqui para ali, e de lá para cá / e fantasiai! / Agora estais vós formosa / como a rosa... / Tudo vos mui bem está, / descansai. Meu caro irmão cessa de olhar por todos os lados o que fazem os outros, e de te comprazer em ti mesmo em comparação com eles. (Erasmus) [Anjo] Que andais aqui fazendo? / [Alma] Faço o que vejo fazer / pelo mundo. (Vicente). A cegueira dá-nos uma falsa visão na hora da decisão, faz com que sigamos o pior em vez do melhor… É pois, necessário que distingas entre o que queres e o que hás-de evitar, por isso há que corrigir a cegueira para não vacilar na hora da escolha… (Erasmus) [Anjo] Alma santa quem vos cega / vos carrega / dessa vã desaventura. [Alma] Isto não me pesa nada! / Mas a fraca natureza / me embaraça, / já não posso dar passada / de cansada… (Vicente). Atendendo a que esta guerra, em curso, é a da Alma consigo própria, contra o seu corpo, nos conselhos dados pelo Anjo será para si própria que a Alma se dirige. Todavia, já o Diabo, o Mundo, atenta com uma guerra de facto, real, com sangue e muita gente morta, que é preciso enfrentar em nome de todos, da sociedade e do Estado, que é figurada de modo a suscitar uma recuperação do que lhe pertence, não a si, mas ao Estado de que faz parte, a todos os que fazem parte do seu corpus social, e assim insiste na necessidade de preparação da guerra contra Veneza: Olhai por vossa fazenda... / Tendes umas escrituras / de uns casais / de que perdeis grande renda, / é contenda / que deixaram às escuras / vossos pais. // É demanda mui ligeira, / litígios que são vencidos / em um riso, / citai as partes terça-feira, / de maneira / como não fiquem perdidos, / e havei siso. Talvez melhor que o Anjo a figurar e transmitir a doutrina de Erasmus, esteja o Diabo, personificando o antagonismo como contraponto aos preceitos ideológicos expressos no Enquiridion. Ambos fazem parte desta Alma, e ambos trabalham para um mesmo fim, pois de um modo ou de outro, ambos pretendem o sucesso da Alma, neste Mundo (de enganos) no caminho das Almas para a salvação. Há que recorrer à Hospedaria, para aí deixar a carga: Oh como vindes cansada! / E carregada!..., a sua riqueza, como para descanso e recuperação da Graça, para ser devidamente encaminhada e tratada (curada) pela Santa Madre Igreja. Às teses ideológicas de Erasmus vão agora sobrepor-se os já existentes pilares da Igreja, os três que são referidos no Enquiridion, mais um, silenciado, mas aí também presente nas críticas; um dos novos teólogos da escolástica, moderno para Erasmus, segundo as suas críticas, que surge na Igreja e cujo legado se impõe aos dirigentes eclesiásticos dos últimos séculos, que surge triunfante nos últimos concílios, São Tomás de Aquino. No Auto, Gil Vicente sobrepõe à velha (a romana pós mártires), e à então actual Igreja, a Igreja do futuro com a nova Basílica de São Pedro de Roma, como pretende o seu líder, renascentista, a Alma, que assume a direcção da Igreja, e por seu livre arbítrio decide, impondo a sua vontade fundamentada... Perante as teses que insistem no regresso às origens, a um cristianismo pelo sacrifício e pelo martírio: zombai de quem vos quiser / repreender / querendo-vos marteirar / tão de graça. A liberdade de pensamento, isto é, de o indivíduo interpretar livremente as Sagradas Escrituras apresentada por Erasmus, preconizada e realizada pelo próprio autor do Enquiridion, trazer para fora da Igreja a Graça Divina, encontra oposição desde as origens da Igreja... A oposição dos três santos doutores muito citados por Erasmus no seu Manual, cuja sustentação ideológica foi tão bem dramatizada por Gil Vicente neste seu Auto - a figurada concretização da interpretação alegórica da parábola do bom samaritano - demonstrando que o próprio autor não segue os conselhos que dá, ou seja, seguir o exemplo dos santos, e logo naquela parábola mais tratada por Agostinho, aquele santo que Erasmus mais recomenda! Sobre a figuração dos problemas políticos sociais e ideológicos pelos autores portugueses do início do século xvi, convém deixar aqui algumas palavras… Gil Vicente trata as questões ideológicas, políticas e sociais em muitas das suas obras, e até na sua última peça, Floresta de Enganos, explora este mundo - Templo de Enganos - do Auto da Alma, pois todo o mundo anda enganado, uma expressão do Enquiridion, que voltou a aparecer em Elogio da Loucura… |
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Atenção, o conteúdo desta página constitui apenas uma amostragem do exposto, fundamentado e comprovado na obra de Noémio Ramos. Que não se tome a parte pelo todo. |
| A "saga de Erasmo" na obra de Gil Vicente continua, a peça seguinte nesta saga é o Auto de Sibila Cassandra do Natal de 1511... Consulte a nossa página sobre essa obra-prima do teatro da renascença, ou no blog... http://teatro.gilvicente.eu |