E pera declaração
desta obra santa et cetra...,
quisera dizer quem são
as figuras que virão
por se entender bem a letra.
                                            Gil Vicente
  ... em  Romagem dos Agravados.
Gil Vicente
   Renascença e Reforma - Líderes políticos e ideólogos - Ideologia e História da Europa
Online desde 2008 - Investigação actualizada sobre as obras de Gil Vicente.
Retórica e Drama - Arte e Dialéctica
Teatro 1502-1536
o projecto
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Aclamação de el-rei João III de Portugal
1521
Outro romance de Gil Vicente que fez quando foi levantado por rei el rei dom João o terceiro de gloriosa memória.

Dezanove de Dezembro
perto era do Natal
na cidade de Lixboa
mui nobre e sempre leal
foi levantado por rei
dos reinos de Portugal
o príncipe dom João
príncipe angelical.
Saiu nua faca branca
parecia de cristal
guarnecida de maneira
que nam se viu sua igual.
Opa leva roçagante
toda fio d’ouro tal
forrada de ricas martas
bem parecia real.
Pelote de prata fina
prata mui oriental
barrado de pedraria
vinha-lhe mui natural.
De perlas nam fazem conta
porque é baixo metal
só um colar que levava
toda Alexandria val.
Na cabeça leva preto
por seu padre natural
saiu com lágrimas tristes
como filho mui leal.
O seu rosto tam fermoso
que parece devinal
seus olhos resplandeciam
como estrelas igual.
Os cabelos da cabeça
d’ouro eram que nam d’al
sua boca graciosa
com ar mui angelical
um sembrante soberano
um olhar imperial.
Nam foi tal contentamento
no povo todo em geral
como ver na rua Nova
ir o seu rei natural
com tanta graça e lindeza
que nam parece humanal.
Os forasteiros deziam:
mui ditoso é Portugal.
O ifante dom Luís
leva o estoque real
o ifante dom Fernando
outro seu irmão carnal
ao estribo dereito
a pé nam lh’estava mal
porque em tal solenidade
tudo lhe vem natural.
Todolos grandes a pé
quantos há em Portugal
o conde priol levava
a bandeira principal.
Chegou assi a sam Domingos
onde estava o cardeal
benzeu o mui alto rei
de benção pontefical
e deu logo juramento
jurou num livro missal
de fazer comprir as leis
como lei emperial.

Confirmou os previlégios
desta cidade real
os povos muito contentes
de rei tam especial
de pequeno sempre grande
manífico e liberal
que é vertude julgada
dos príncepes a principal.
Isto tudo assi acabado
disseram: arraial arraial.
Ali tocam as trombetas
atabales outro tal
todos lhe beijam a mão
os senhores em geral.


Fim.
Aqui diz o autor o que cada um dos senhores de Portugal deriam ao beijar da mão.
Eu estava cá no chão
com’outro desmazelado
do teatro tam alongado
que via beijar a mão
mas nam ouvia o falado.

E ocupei o cuidado
no que cada um deria
assi de minha fantesia
segundo vi o passado
e a mudança que via.


O novo rei sabedor
deria com sã vontade:
nome da santa trindade
e seja por seu louvor
e por bem da cristandade.

Nam me dá a prosperidade
vanglória de meu reinado
pois Salamão diz verdade
que tudo é vaidade
bem olhado.


Deria mui humilhado
o senhor duque de Bragança:
alto rei nossa esperança
Deos que vos deu o reinado
vos dará sempre bonança.

Esta súpita mudança
bem parece obra divina
e com esta segurança
fazei que vossa balança
seja fina.

O mestre de Santiago
de quem sempre mercê vejo
diria d’amor sobejo:
eis aqui minha alma trago
com que servir-vos desejo.

De todo o meu me despejo
e fique-me o coração
onde está tanta afeição
que sempre em vós me revejo
com rezão.


O marquês de Vila Real
diria lagremejando:
ó neto del rei Fernando
todo de sangue real
pera bem vos seja o mando.

E diria aconselhando:
governai polo antigo
qu’este pasto está em perigo
as ovelhas sospirando
sem abrigo.


O bispo d’Évora creo
que ouvindo esta rezão
diria pera redenção:
fuit homo missus a Deo
cujo nome era João.

Beijo-vos senhor a mão
e ferrai sobre o velho
nam cureis daquele espelho
que cegou a Roboão
de meu conselho.


O conde de Marialva sei
que diria assossegado:
reino bem aventurado
louva teu Deos por tal rei
que agora estás povoado.

Mandai chamar vosso gado
e preguntai-lhe que há
e de pouco pera cá
o por que anda arrepiado
vos dirá.


Diria o conde de Penela
como todos mui leal:
beijo vossa mão real
e guiai-vos pola estrela
do vosso bom natural.

Sede isento e liberal
provedor dos lavradores
e pai dos povos menores
c’os grandes muito real
e moderados favores.


Diria o conde priol
depois de lh’a mão beijar:
Deos vos queira prosperar
este é bom ré mi fá sol
porém forte de cantar.

Quero-vos aconselhar
que façais grande tesouro
antes de fama que d’ouro
e tende o muito cobiçar
por agouro.


Diria o muito jocundo
senhor conde de Tentugal:
houvera de ser Portugal
todo universo mundo
pera rei tam cordial.

Conselho vos dou real
que se ele for mester
seja de homem a meu ver
sábio velho e leal
que é o que o conselho quer.


Diria o conde da Feira:
senhor sam certificado
que só Deos dá o reinado
e pois vo-lo deu ele queira
que o logreis prosperado.

Porém sereis avisado
que a todo julgador
deis grã tença de temor
por que o povo coitado
nam coma pão de dolor.


Diria o conde d'Alcoutim
beijando a mão preciosa:
Deos vos dê vida ditosa
e tire os dias de mi
pera vossa vida e nossa.

E pera ela ser fermosa
sede livre e nam mandado
açamai qualquer criado
- que nam seja diz a grosa -
mais que vós à custa vossa
adorado.


O de Portalegre diria
mui católico privado:
senhor sejais bem casado
e sempre com alegria
logreis vós vosso reinado.

E por que mui nomeado
per todo o mundo sejais
hereges nam consintais
porque está Deos assanhado
nos mostram os temporais.


Conde de Vila Nova.

Este senhor mui prudente
diria: seja louvado
Deos que vos fez laureado
e seu fiel presidente
e dino de mor reinado.

Pera bem aconselhado
nam ouçais mexeriqueiros
nem os que forem primeiros
nam vos façam ser irado
sem ouvir os derradeiros.


O conde do Vemioso
como quem sabe d’açor
deria com grande amor:
assi como sois fermoso
tal será vosso lavor.

Conselho-vos rei meu senhor
por vossa honra e proveito
que deis ao bom servidor
antes renda que favor
muito estreito.


Diria o conde almirante
a el rei mui excelente:
fazei como gram prudente
que vosso reino se mande
per vossa alteza somente.

Porque o comum da gente
é dizer eu tenho lá
e onde rezão nam há
a descobre um bom presente
de mui pouco pera cá.


Diria o bispo do Funchal:
senhor beijo-vo-la mão
por cristianíssimo romão
rei terceiro em Portugal
do santo nome João.

Pois conselho aqui vos dão
o conselho que eu daria
que perdessem a valia
as aderências pois são
as que dão vida ao ladrão
cada dia.


O regedor lhe diria
também o governador:
neste dia o senhor
do mundo de vós confia
os gados de que é pastor.

A vós fez seu guardador
e nam senhor pola renda
outrem vos reja a fazenda
por que o vosso lavor
na justiça só entenda.


Diriam os vereadores
da nobre e sempre leal:
pois que nacestes real
vós seguireis os primores
d’Alexandre e Anibal.

E pera mais divinal
nam estimeis o dinheiro
e a todo bom cavaleiro
sede muito liberal
e esquivo ao lisonjeiro.

Fim:

Diria o povo em geral:
bonança nos seja dada
que a tormenta passada
foi tanta e tam desigual
que no mundo é soada.

E pois a mão vos é dada
fazei-nos sorte ditosa
e praza à virgem gloriosa
que guardeis esta manada
como vossa.
- Livros publicados no âmbito desta investigação, da autoria de Noémio Ramos:

(2017)  - Gil Vicente, Aderência do Paço, ...da Arcádia ao Paço.
(2017)  - Gil Vicente, Frágua de Amor, ...a mercadoria de Amor.
(2017)  - Gil Vicente, Feira (das Graças), ...da Banca Alemã (Fugger).
(2017)  - Gil Vicente, Os Físicos, ...e os amores d'el-rei.
(2017)  - Gil Vicente, Vida do Paço, ...a educação da Infanta e o rei.
(2017)  - Gil Vicente, Pastoril Português, Os líderes na Arcádia.
(2017)  - Gil Vicente, Inês Pereira, As Comunidades de Castela.
(2017)  - Gil Vicente, Tragédia Dom Duardos, O príncipe estrangeiro.
(2015)  - Gil Vicente, Auto dos Quatro Tempos, Triunfo do Verão - Sagração dos Reis Católicos.
(2015)  - Gil Vicente, Auto dos Reis Magos, ...(festa) Cavalgada dos Reis.
(2014)  - Gil Vicente, Auto Pastoril Castelhano, A autobiografia em 1502.
(2012)  - Gil Vicente, Tragédia de Liberata, do Templo de Apolo à Divisa de Coimbra.
(2012)  - Gil Vicente, O Clérigo da Beira, o povo espoliado - em pelota.
(2010)  - Gil Vicente, Carta de Santarém, 1531 - Sobre o Auto da Índia.
             - Gil Vicente, O Velho da Horta, de Sibila Cassandra à "Tragédia da Sepultura" 
(2ª Edição, 2017)
(2010)  - Gil Vicente, O Velho da Horta, de Sibila Cassandra à "Tragédia da Sepultura".
(2010)  - Gil Vicente, Auto da Visitação. Sobre as origens.
(2008)  - Gil Vicente e Platão - Arte e Dialéctica, Íon de Platão.
             - Gil Vicente, Auto da Alma, Erasmo, o Enquiridion e Júlio II... 
(2ª Edição, 2012)
(2008)  - Auto da Alma de Gil Vicente, Erasmo, o Enquiridion e Júlio II...

- Outras publicações:
(2003) - Francês - Português, Dicionário do Tradutor. - Maria José Santos e A. Soares.
(2005) - Os Maios de Olhão e o Auto da Lusitânia de Gil Vicente. - Noémio Ramos.

  (c) 2008 - Sítio dedicado ao Teatro de Gil Vicente - actualizado com o progresso nas investigações.

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