E pera declaração
desta obra santa et cetra...,
quisera dizer quem são
as figuras que virão
por se entender bem a letra.
                                            Gil Vicente
  ... em  Romagem dos Agravados.
Gil Vicente
   Renascença e Reforma - Líderes políticos e ideólogos - Ideologia e História da Europa
Online desde 2008 - Investigação actualizada sobre as obras de Gil Vicente.
Retórica e Drama - Arte e Dialéctica
Teatro 1502-1536
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Égloga "Basto" de Sá de Miranda
Égloga Basto de Francisco de Sá de Miranda

Conforme a 5ª Edição (Clássicos Sá da Costa) de Obras Completas de Francisco de Sá de Miranda, Volume I, (texto fixado por Rodrigues Lapa).

Égloga Basto                                               [ Comentários ]
de Francisco de Sá de Miranda
 
a Nuno Álvares Pereira

1
Pelas ribeiras duns rios                                    [ O próprio ]
(como dizem os cantares)
e pelos bosques sombrios,
dando lugar aos pesares,
ouvi meus contos baldios.
 
E porque m’eu também afasto
do povo, que me não reja,
ou trás si me leve a rasto,
vede em que, do tempo, gasto
também o que me sobeja.
 
2
Enquanto um joga, outro caça,                          [ Os outros ]
outro dorme, outro trasfega, em geral
tantos murmuram na praça;
outro quanto afirma ou nega
com juras tudo embaraça.
 
De si tanto outro se preza
que só cuida que ench’as festas;
outro pela rua reza.
Falemos com a natureza,
andando pelas florestas.
 
3
Grande sinal de saúde                                     [ O destinatário ]
é ter tudo à parte posto,
olhos somente à virtude;
ledo ou triste, um mesmo rosto,
que não há quem vo-lo mude.
 
Sabeis, sem outra mais troca,
que é ela assi paga igual;
por isso não vos trastroca
o coração nem a boca,
o bem nem menos o mal.


Por de mais tudo aperfia                               [  Aquele de
c’um peito tam livre e são,                            quem se vai falar ]
que tomou tam certa guia;
daqui nace a presunção,
cuidam que da fidalguia.
 
Quem sabe por onde vai
leva sua conta feita,
nunca do caminho sai,
nunca olha a quem diz: «tomai
à esquerda, ou à direita».

5
Ambos nos temos à banda                            [ Conclusão ]
de Gil, que aqui vos envio
por onde a menos gente anda;
eu porém não aporfio,                                    [ Não disputa ]
que a cada um seu gosto manda,                   [ Não rivaliza ]
 
Não falecem contendores,                              [ Não faltam rivais ]
seja a razão a que vença;
estem à parte os favores;
ouvi os vossos pastores:
outrem parta a deferença.
 
 
BASTO
 
BASTO, representador,
de quem se toma o nome.                                [
Apresentador ]
 
PASTORES. Bieito. Gil.
 
BASTO


Como corre e como atura
quem vai após o seu gosto!
Não sente frio ou quentura,
mas no suor do seu rosto
busca às vezes má ventura.
 
Sem guia e sem esconjuro,
c’os medos se desafia;
só vai, afouto e seguro;
de noite pólo escuro,
por montes ermos de dia.
 
7
Este apetito que digo,
quem o desse à má maleita,
que traz mil artes consigo:
guar-te dele que te espreita,
por dar d’avesso contigo.
 
Rosto ao si e rosto ao não,
a fortuna é feita assi:
mal a conhece o vilão;
cuida que a tem na mão,
ela sorri-se entre si.
 
8
Onde quer cho demo jaz,
para haver de embicar nele:
fui topar c’um mau lobaz,
dei-me c’os meus cães trás ele,
tive de fadiga assaz.
 
Eis desparece, eis que assoma,
desfazia-me correndo,
toma aqui cão, ali toma;
som caçador: fui-me em soma,
assi traspondo e perdendo.
 
9
Isso a quem não acontece?
Seja porém na má hora;
o tempo desaparece,
estão-se rindo os de fora,
a nós não no-lo parece.
 
A correr e dar à choca,
este desafia mil;
aqueloutro vende e troca;
outro traz graças na boca;
doutro chia o arrabil,
 
10
Cuida que as namora todas;
não sei quem ch’é, por fermoso,
vai-se às festas, vai-se a bodas;
tenho-me eu c’o dadivoso
qu’unta o carro, andam as rodas:
 
grandes cousas, cap’em colo,
conta - se elas assi são -
que me dão volta ao miolo.
Devem-me de ter por tolo;
e eu a eles por que não?
 
11
Como lontra jaz no rio
um, e o seu gado mal pasa;
ele pesca, ora c’o fio,
ora cana e ora nassa;
outro que anda sempre em cio;
 
daqueloutro a esposa crama,
vê-se desejosa e nova,
dando voltas pola cama;
ele por neve e por lama
corre c’os seus cães à prova.
 
12
Vai assi já há muitos dias,
que não volve atrás ninguém;
bebemos das bem-querias,
que cada um consigo tem;
damos dessas razões frias.
 
O bom Gil, sendo mais moço,
muita da terra correra;
passa um, passa outro alvoroço;
o seu fardel ao pescoço
por bom parceiro escolhera.

13
Ora ele assi pastor sendo,
se primeiro estava mal,
foi apalpando, foi vendo;
antre nós che era outro tal:
também se foi delambendo.
 
Uma vez lama, outra poo,
sempre te achas achacado;
inda deu mais outro voo:
por melhor houve andar soo
que assi mal acompanhado.
 
14
Era grande amigo seu
Bieito; e, vendo a tal mania,
consigo um dia la deu;
tiveram grande porfia:
um rezões deu, outro deu.
 
Não há quem se não defenda
a pareceres alheos,
antes mais que dos que emenda;
contar vos hei da contenda
sem meter verbas nos meos.
 
BIEITO
 
15
Que é isto, Gil, que andas triste,
despois que entrou este Abril?
Não sei que demo te viste,
que tu não pareces Gil.
Amigo, onde te sumiste?
 
Ulo aquele grande amigo,
de limpos bofes lavados,
daquele bom tempo antigo?
que assi falava contigo,
tu comigo os teus cuidados?
 
16
Assi tão só te vieste,
forte burrão foi o teu!
Tanto d’amigo esqueceste
como aqui tinhas de teu!
Nem a mim não mo disseste.
 
Ora di-me, se te apraz:
despois de tanto sol posto
tal inchaço inda em ti jaz?
Arrenega o mal, que traz
sempre à memória mau rosto.
 
17
Tu olhas-me de través:
parece que a mal o tomas;
mas se Gil tu inda este és,
não hei medo que me comas,
por anojado que estes.
 
Posto que, por mau acerto,
fezeste forte mudança,
já tanto to não referto;
mas de um amigo tam certo
deveras ter mais lembrança.
 
18
Muitas vezes esmagino,
Gil amigo, em ti cuidando,
na tua brandura e ensino,
que falarias estando
duas horas c’um menino.
 
Ora olha bem o que fais;
tinhas tantos de bons modos
c’os iguais e não iguais,
quando estavas bem c’os mais:
dás que em ti falar a todos!
 
19
Que se fez do teu cantar?
Ninguém não cantava assi;
mas para que é perguntar
senão que se fez de ti?
Onde te iremos buscar?
 
Não há ora um tanto espaço
quando Janebra casou
com Gregório teu colaço
- quem teve rosto aos do paço?
Quem tangeu e quem cantou?
 
20
Morreu-te gado meúdo?
Assi vai de grão em grão;
não se pode salvar tudo;
vem bom tempo após o mau:
sofre, que sofre o sesudo.
 
Arrenega dos assanhos:
Já os devias ter provados;
Não são os males tamanhos:
Se este Março não foi de anhos,
Outros virão melhorados.
 
GIL
 
21
Seja, amigo meu Bieito,
a tal vinda em hora boa;
eu digo, amigo escolheito,
como quem o leite côa,
qu’ há d’ ir por dentr’ao seu peito.
 
Mas, respondendo ao que dizes,
vês-me cajado e fardel,
não caçador de perdizes,
bem sei que há muitos juízes,
e muito poucos sem fel.
 
22
Mas em fim, que pesa ou val,
- a nós parece que muito,
diz Turíbio, diz Pascoal, -
palavras vãs e sem fruito,
e às vezes inda sem sal?
 
Quando a bíbera no ar morde,
Por mais peçonha que traga,
Não temas que eu inche e engorde,
Não hajas medo que acorde
Bradando pola triaga.
 
23
Vês tu cousa que este queda?
Ora é noite, ora amanhece,
ora corre ~ua moeda,
ora outra:tudo envelhece,
tudo tem no cabo a queda.
 
E nós a ter mão na conta
errada! sejamos velhos,
quer meninos - que mais monta?
O presente todo afronta,
a vida vai-se em conselhos.
 
24
Do leite e sangue empolado,
O bezerrinho viçoso
vai brincando pólo prado;
despois eis que, priguiçoso,
ora ò carro, ora ò arado.
 
C’os dias e c’o trabalho
o saltar d’antes lhe esquece;
não é já o que era almalho:
venda-se para o talho,
qu’este boi velho enfraquece.
 
BIEITO
 
25
No começo os erros tem
bom remédio; ao diante
tem-no mau; se não vás bem,
peor muito irás avante:
torna atrás que te convém.
 
Não o tenhas por amigo
quem fala sempre à vontade,
que dissimula contigo;
lembra-te dum dito antigo:
qu’enfada muito a verdade.
 
26
Mal vai quem sempre empeora;
e que meninos, pastores!
um olho ri e outro chora;
vem um diz que são amores,
outro mas que é mal de fora.
 
Um se torce, outro moteja;
é mau jogo este das línguas,
ou seja maldade, ou seja
nossa amiga a triste enveja,
vem-se em tanto à praça as mínguas.
 
GIL
 
27
O moço que entra em terreiro
e não toca em chão de leve,
polo ar voa o pandeiro,
e a toda a festa se atreve
ele só c’o seu parceiro.
 
Este tal baile, este cante,
este  seus jogos ordene, corra,
voe e passe avante;
este c’os saltos espante,
este dê penas e pene.
 
28
Mas quem já se vê das pontas,
nem acha o que soía em si,
começa a tomar-se contas:
- Ouvi já melhor, e vi
suar e passar afrontas.
 
Vês o tempo como foge
que parece que não toca?
Não queres que homem se anoje:
que me não conheci hoje
na fonte em que pus a boca!
 
29
E por que t’eu ora conte
de como me aconteceu,
quando m’eu tal vi de fronte,
dos olhos água correu
mais que corria da fonte.
 
Passou-se-me a sede em fim,
que m’aquela água trouvera;
a tal desacordo vim,
que, quando tornei em mim,
bom espaço o Sol correra.
 
BIEITO
 
30
Come de toda vianda,
não andes nesses entejos;
não sejas tam vindo à banda,
tem-te às voltas c’os desejos:
anda por onde o carro anda.
 
Vês como os mundos são feitos:
somos muitos, tu só és;
por isso, em todos seus jeitos,
um esquerdo antre direitos
parece que anda ao revés.
 
31
Dia de Maio chuveu:
a quantos a água alcançou
o miolo revolveu;
houve um só que se salvou,
que ao coberto se acolheu.
 
Dera vista às semeadas,
as que tinha mais vezinhas;
viu armar as trovoadas,
acolhe-se às bem vedadas
das suas baixas casinhas.
 
32
Ao outro dia um lhe dava
paparotes no nariz,
vinha outro que o escornava;
aí também era o juiz,
que se de riso finava.
 
Bradava ele: - Homens, estai!
iam-lhe c’o dedo ao olho.
Disse então: - E assi che vai?
Não creo logo em meu pai,
se me desta água não molho.
 
33
Apaixonado qual vinha,
achou num charco que farte;
o conselho havido o tinha:
molhou-se de toda a parte,
tomou-a como mezinha.
 
Quantos viram, lá correram:
um que salta, outro que trota,
quantas graças i fizeram!
Logo todos se entenderam:
ei-los vão n~ua chacota.
 
GIL
 
34
Tu sabes que eu me abrigara
a esta vida de pastor;
viera corrido à vara,
cuidei que era esta melhor,
que ouvira e não a provara.
 
Determinava-me já
d’andar com minhas ovelhas;
a conta saiu-me má;
mas «também cá, como lá
fadas há,» dizem-no as velhas.
 
35
Andei d’aquém para além;
vira terras e lugares,
tudo seus avessos tem;
o que não espermentares
não cuides que o sabes bem;
 
e às vezes, quando cuidamos
que esprimentado o já temos,
à cabra cega jogamos;
achei-vos cá; fortes amos
querem que os adoremos.

36
Pêra o mal que te acontece
buscas o amo: ora o sono,
ora al que nunca falece;
ao trosquiar achas dono,
as pressas não te conhece.
 
Tudo lhes o demo deu,
té razões más que nos dão;
quando te hão mester, és seu,
quando os hás mester, és teu:
que não tens amos então.
 
37
Essa vez que saem à rua
estremece toda a aldeã;
eles bebem homem sua,
dói-lhes pouco a dor alhea,
querem que nos doa a sua.
 
Inda que é o dano em grosso,
fora de dissimular
no mais, mas nisto não posso:
o entendimento que é nosso,
não no-lo querem deixar.
 
38
Pólo qual c’o meu fardel
fugi das vossas aldeãs;
não trago nos beiços mel
nunca fui cresta-colmeas,
nem posso ser ministrel.
 
A saudade não se estrece,
mas caiu-me um coração
em sorte, que muito empece:
outro senhor não conhece,
somente a boa razão.
 
39
Porém queixo-me-te logo,
que, em casos que aconteceram,
vi-me por ela no fogo;
bradei e não me valeram
brados, queixumes, nem rogo.
 
Então me saí meu quedo
a quedo; e fará algum dia
o que outro não fez; e hei medo
de ver mor vingança cedo
do que já agora queria.
 
PELAYO
 
40
Tornaste-me ora à lembrança
um teu amigo foão,
que, ao tempo dessa mudança
tua, foi-te assi à mão,
como a quem os dados lança;
 
e lembra-me ora bem tudo,
que era eu i no tal ensejo,
inda que então me fiz mudo;
falou-te como sesudo,
parece-me ora que o vejo.
 
41
- Seja, disse ele, à boa hora;
mas eu também c’o meu gado
faço assi contas cad’hora;
cad’hora me acho enganado
desta esperança tredora.
 
Dir’-t’ei como me acontece
quando neste vale estou:
qualquer outro que aparece
muito melhor me parece;
não é assi quando lá vou.
 
42
Assi disse aquele amigo;
agora digo eu que hei medo,
quando debates contigo,
que t’estêm mostrando ao dedo
Gomes, Gonçalo e Rodrigo.
 
Não queiras ir muito ao fundo,
inda que ora tanto entendas;
nesta razão te me fundo:
não hás-de mudar o mundo,
por mais razões que despendas.
 
43
Perigosa é a dianteira,
deixa ir diante os mais velhos;
co’a paixão tençoeira                                       [ Os conselhos da paixão,
nunca hajas os teus conselhos:                         devendo ler-se: os seus ]
sempre foi má conselheira.
 
De contino anda ao peor,
sempre adevinhando o mal;
nunca lhe falece dor;
mas se tudo igual não for,
seja o coração igual. 
 
GIL
 
44
Se c’os teus olhos não vejo,
nem ouço c’os teus ouvidos,
por meus sentidos me rejo,
e tu pelos teus sentidos,
todo o debate é sobejo.
 
Comes túberas da terra,
eu não nas posso comer;
nem um nem outro não erra.
Para que é sobr’isto guerra?
Come o que bem te souber.
 
45
E não te digo que faças
quanto ao apetito vem:
não entro tanto nas graças;
mas entendo o saber bem
disto que anda pelas praças.
 
Porque o tempo fez abalo,
e somos em forte ensejo,
inda alevanto outro valo:
que nos doentes não falo,
os quais mata o seu desejo.
 
46
Bem digo que a verdade era
ir pelo fio da gente;
c’os mais mais força houvera,
e o amigo e o parente
que murmurar não tevera.
 
Porém a mim só não minto,
não dobro, não lisonjeo;
som farto, que era faminto:
que mal é o meu destino
antes seguir, que o alheo?
 
47
Vou fugindo às armadilhas
que vi com manha esconder;
não quero ouvir maravilhas
às vezes mui más de crer:
da má mãe nacem más filhas.
 
Querem que homem ouça e crea,
e que estê a boca aberta.
Não posso; e daqui se atea
Às vezes a má estrea,
Que a cada passo está certa.
 
48
Olha se a razão concrude:
és doente, teu pai não;
digo outro tal da virtude.
Pola ventura és tu são,
porque teu pai tem saúde?
 
Não, que cumpre outra mezinha;
olhe cada um por si.
O bem não é como a tinha,
que se apegue tão asinha;
o mal pode ser que si.
 
49
Lê-me primeiro essa lenda:
deixaram-te os teus passados
terras e vinhas de renda?
Olha que vão mesturados
encargos co’a fazenda.
 
Cumpre a cada um que arribe
per si, se desejas honra;
não te abasta: donos tive,
que quem como eles não vive,
tanto mais sua desonra.
 
BIEITO
 
50
Pois contigo a razão val,
vejamos quem mais conjunta;
olha que todo o animal
forte, ou fraco, aos seus se ajunta
por distinto natural.
 
As pombas andam em bandas,
voam grous postos em az;
estas andorinhas brandas
não querem de nós viandas,
querem companhia e paz.
 
51
Como no mundo apontamos,
do ventre em terra caímos;
como de nós sós choramos,
doutrem que ajuda pedimos!
nós sós para que prestamos?
 
Então vem a fantasia
dos nossos leves zagais!
a quem inda mais diria
que não hei por companhia,
salvante a dos meus iguais.
 
52
Um bacorote honradiço
foi ver o gado ovelhum;
pô-lo todo a seu serviço,
trombejava ali um e um,
que espantá-lo era o seu viço.
 
Vem um dia o lobo, e apanha
o bacorote engrifado;
abrandou-lhe aquela sanha;
brada ele em pressa tamanha,
cad’ um de si tem cuidado.
 
53
Vinham os porcos d’ aldeã
atrás, e grunhir ouviram:
um escuma outro esbravea;
estes, si, que lhe acudiram;
perde o lobo sua cea.
 
Olhou ele, e viu tremer
de lã branca o gado;e olhando
de longe se põe a ver.
Disse:Antes mandado ser,
que a tal perigo tal mando.
 
54
Fui um dia à vila, Gil:
eu, logo ò  sair de casa,
mais verde que um perrexil,
cuidei que mandava a brasa
de galante e de gentil.
 
Bem passei c’ os viandantes;
mas, despois lá, quando cheas
vi as ruas de galantes,
s’ eu viera ufano d’ antes,
não tornei tal às aldeas.
 
55
Em quanto um diz, outro ri:
- Bom vai o do barretinho!
- Nunca o tam figadal vi!
Chamavam-me outros ratinho,
uns assi, outros assi.
 
Finalmente por acerto
vinham-se dos nossos já;
deixei-os chegar ao perto;
i passei como encoberto,
mas tarde me acolhem lá.
 
GIL
 
56
Falas-me nos animais,
a que nós brutos chamamos,
que guardam leis naturais;
nós outros não nas guardamos,
a isso obrigados mais.
 
Estes homens com quem tratam,
não homens, mas leões bravos,
por força tudo rematam;
os leões não te resgatam,
não te vendem por escravos.
 
57
Para que mandem nem rejam,
não vão as águas tingidas
do seu sangue; se pelejam,
não alçam forcas erguidas,
onde às aves manjar sejam.
 
Não tem repartida a terra
por marcos tam desiguais,
de sangue e fogo, por guerra;
um possui de serra a serra,
outro nada, ou dous tojais.
 
58
Espanto é desigual
da lei que entre si tem gralhas:
vendo ~ua que passa mal,
decem gritando em batalhas,
não tratam entonces de al.
 
Ora te direi assi:
quem diz o que viu não mente;
Guar-te de cair aqui,
que verás passar por ti
o amigo e o parente.
 
59
Nunca ora ouvi um rifão
mais sabido e mais usado:
«que darem todos de mão
se jaz o carro entornado»
- os que vem, e os que vão.
 
Falo porém geralmente,
não tomes outra suspeita,
que é mui suspeitosa a gente;
o meu amigo fervente
não entra nesta receita.
 
60
Muitos dos vaus apalpei,
aos trabalhos me despus;
dês que cuidei e cuidei,
disse comigo: - Ora sus,
se erros fiz, erros paguei.
 
Cuida homem que bem escolhe
ás singelas só consigo;
não sei quem te a vista tolhe;
fujo como quem se acolhe
donde vê certo o perigo.
 
61
Andando só não me empecem
maus olhos, nem más palavras,
nem se apega, se engafecem
por outros fatos as cabras,
curo-as se me adoecem.
 
Por que tudo diga em soma:
não me temo que o cabrito
me esconda o vezinho e coma;
aqui, se paixão me toma,
posso cantar voz em grito,
 
62
Que me não ouça ninguém,
somente as aves, que tais
duas avantagens tem
destes outros animais:
voar, e cantar também;
 
ou ao som d’ água que cai,
rompendo pelos penedos,
dece ao fundo, ao alto sai:
ela que a grã pressa vai,
eles para sempre quedos.
 
63
Vês tu as minhas cabanas?
Se o vento se muda assi,
as revezo eu; Aldas, nem Anãs
não dão voltas por aqui,
mais leves que ao vento canas,
 
cantando dos seus solaus
(que me façam merecer
muitos destes vara-paus),
com seus olhos vaganaus,
bons de dar, bons de volver.
 
64
O sol de dia, as estrelas
de noite, quantas que vemos!
Nacem delas, põem-se delas…
Olhamos mais que entendemos;
e a l~ua, fermosa, entr’ elas,
 
que se renova e reveza,
ora um fio, ora mais chea,
ora em sua redondeza,
cada mês - com que certeza! -
semelha a da nossa aldea!
 
65
Do que ao meu gado sobeja
vou vivendo ano por ano;
pouco ou muito que ele seja,
a ninguém não faço dano,
e não se há ao povo enveja.
 
Parece vida, em verdade,
dos mastins, gado e pastor
como de comunidade;
com tal fome e frieldade,
tudo rege e manda Amor.
 
66
Do mais, dezia Pascoal:
Sabes que é o que nos come?
má cobiça que não al;
onde quer se mata a fome,
matam-se apetites mal.
 
Polo sol e pela neve,
natureza a grande madre,
qu’aos filhos também cho deve,
a tudo acudir se atreve,
por mais que este ventre ladre.
 
67
Meu gado levo, esse sigo,
que inda são mais embaraços
do que eu quisera comigo;
passei por tantos dos laços,
que olhar somente é perigo.
 
No meu samarrão metido,
que mais quero? Sou pastor,
cá nunca chega apelido
de fogo, nem de arruído:
mal se for, mal se não for.

68 
Aqui por estes abrigos
(os mais debates deixemos)
virão ver-me os bons amigos;
ao sol nos entenderemos,
falando em tempos antigos;
 
e despois dos meses mil
quiçais inda dirá alguém,
olhando este meu covil:
- Por aqui cantava Gil
sem queixia de ninguém.
 
69
Quando tudo era falante,
pascia o cervo um bom prado;
aí veo o cavalo andante;
quis comer algum bocado,
pôs-se-lhe o cervo diante.
 
Outra razão lhe não deu
(que eram pacigos gerais)
salvo posso e quero o meu;
este meu e este teu
tanto há já que nos fez tais.
 
70
Vendo tam pouca prestança,
o cavalo, d’antes forro,
com desejo de vingança,
pedindo ao homem socorro,
por terra aos seus pés se lança.
 
Não pode, à justa querela,
deixar de se pôr no meo;
mas foi necessária a sela:
fez-se o homem forte nela,
toma a rédea, prova o freo.
 
71
Assi dão volta ao imigo.
O cervo, quando tal viu
- homem ao cavalo amigo -
deixou-lhe o campo e fugiu,
foi buscar outro pacigo.
 
O cavalo vencedor
corre o verde e corre o seco:
fora, fora, o contendor!
Ficou-lhe porém senhor,
não foi tanto o outro enxeco.
 
72
Quem há tal medo à pobreza,
tal à fome e frialdade,
que por ouro e por riqueza
dá a só rica liberdade,
e mais outrem que a si preza?
 
Se lhe vês herdades largas,
não lhe hajas enveja à troca,
que embaraçam as roupas largas,
faz sangue o freo na boca,
as esporas nas ilhargas.
 
73
Mas tu olhas o sol que anda,
amigo? É tarde; folga ora,
deixemos esta demanda
mal-avinda pera outra hora;
a cea fora mais branda.
 
Com dous peixinhos passaras
do rio, não d’almocreves,
que as vilas fazem tam caras;
beberas das fontes claras,
sonharas sonhos mais leves.
 
BIEITO
 
74
Volves-me as cousas de envés;
quês por força que te crea
o que tu quiçás não crês;
sabe que alma é já na aldeã,
lá me hão-de lavar os pés.
 
E tu dize o que quiseres
torce cá e torce lá,
defende teus pareceres,
mas onde i não há mulheres,
vida, nem gosto não há.
 
75
Aquela graciosa idade
que òs olhos vistos nos furta
com tanta força a vontade,
com tanta o juízo encurta,
não é de todo vaidade.
 
Suspiraste! Ora eu te entendo
e ver-nos-emos despois;
por ora, a Deus te encomendo.
 
GIL
 
Não te quero estar detendo.
 
BIEITO
 
Vou-me, que é tarde, aos meus bois.
 
BASTO
 
76
Contou-se isto pola aldeã,
de pastores, em pastores,
logo foi a terra chea;
[ xxx…xxx]
então quais eram melhores?
 
Mas, revolto o calendário,
visto tudo, e contas feitas,
fica assentado o sumário:
Gil por homem voluntário,
homem Bieito às direitas.
 



- Livros publicados no âmbito desta investigação, da autoria de Noémio Ramos:

(2018)  - Sobre o Auto das Barcas de Gil Vicente, Inferno, ...a interpretação -1.
(2017)  - Gil Vicente, Aderência do Paço, ...da Arcádia ao Paço.
(2017)  - Gil Vicente, Frágua de Amor, ...a mercadoria de Amor.
(2017)  - Gil Vicente, Feira (das Graças), ...da Banca Alemã (Fugger).
(2017)  - Gil Vicente, Os Físicos, ...e os amores d'el-rei.
(2017)  - Gil Vicente, Vida do Paço, ...a educação da Infanta e o rei.
(2017)  - Gil Vicente, Pastoril Português, Os líderes na Arcádia.
(2017)  - Gil Vicente, Inês Pereira, As Comunidades de Castela.
(2017)  - Gil Vicente, Tragédia Dom Duardos, O príncipe estrangeiro.
(2015)  - Gil Vicente, Auto dos Quatro Tempos, Triunfo do Verão - Sagração dos Reis Católicos.
(2015)  - Gil Vicente, Auto dos Reis Magos, ...(festa) Cavalgada dos Reis.
(2014)  - Gil Vicente, Auto Pastoril Castelhano, A autobiografia em 1502.
(2013)  - Gil Vicente, Exortação da Guerra, da Fama ao Inferno, 1515.
(2012)  - Gil Vicente, Tragédia de Liberata, do Templo de Apolo à Divisa de Coimbra.
(2012)  - Gil Vicente, O Clérigo da Beira, o povo espoliado - em pelota.
(2010)  - Gil Vicente, Carta de Santarém, 1531 - Sobre o Auto da Índia.
             - Gil Vicente, O Velho da Horta, de Sibila Cassandra à "Tragédia da Sepultura" 
(2ª Edição, 2017)
(2010)  - Gil Vicente, O Velho da Horta, de Sibila Cassandra à "Tragédia da Sepultura".
(2010)  - Gil Vicente, Auto da Visitação. Sobre as origens.
(2008)  - Gil Vicente e Platão - Arte e Dialéctica, Íon de Platão.
             - Gil Vicente, Auto da Alma, Erasmo, o Enquiridion e Júlio II... 
(2ª Edição, 2012)
(2008)  - Auto da Alma de Gil Vicente, Erasmo, o Enquiridion e Júlio II...

- Outras publicações:
(2003) - Francês - Português, Dicionário do Tradutor. - Maria José Santos e A. Soares.
(2005) - Os Maios de Olhão e o Auto da Lusitânia de Gil Vicente. - Noémio Ramos.

  (c) 2008 - Sítio dedicado ao Teatro de Gil Vicente - actualizado com o progresso nas investigações.

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