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O Teatro de Gil Vicente
E pera declaração
desta obra santa et cetra...,
quisera dizer quem são
as figuras que virão

por se entender bem a letra.

  ... em  Romagem dos Agravados.
Lendo o Auto da India de Gil Vicente
Ler Erasmo e Gil Vicente

As figuras
nas personagens dos Autos
- os protagonistas -
em Obras


As suas obras dramáticas,
a lista de todos os autos,
em Autos

Datação das obras, dos Autos de Gil Vicente
Gil Vicente, artista da Renascença, reinventor do Teatro
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Os autos pelo Natal de Gil Vicente


O Texto desta página, autorizado pelo autor,
constitui parte do livro com o 
ISBN - 978-972-990007-5

Título:       Gil Vicente, o Velho da Horta,
Sub-Título: De Sibila Cassandra à "Tragédia da Sepultura"
Autor:         Noémio Ramos
  
     Se procura autos (peças de teatro) religiosos, deve procurar outro autor, Gil Vicente não criou peças de teatro religioso, nem de devoção.
      A Religião e a Igreja nas peças de Teatro de Gil Vicente têm lugar destacado (embora nem sempre), por ser a ideologia do século XVI.


Breve sumário da “saga da religião” nas obras de Gil Vicente

      Fora das fronteiras de Portugal o Auto de Sibila Cassandra é, possivelmente, o auto de Gil Vicente mais representado, estudado, traduzido e comentado, sobre ele já se disseram as maiores barbaridades e já se lhe teceram os maiores elogios, de Pelayo a Potter. Já foi classificado de mistério medieval a teatro pós-modernista (e ambas as coisas), embora se afirmem as dúvidas sobre o seu sentido, pelo que não se percebe como se pode classificar algo que ainda não se compreendeu. Nele encontrou Potter, depois de Melveena McKendrick e outros, a manifestação da liberdade feminina numa expressão pós-moderna, e este aspecto constitui, talvez, aquilo que de mais importante se tem visto neste Auto de Gil Vicente.

      Sobre a questão da interpretação (o entendimento) de uma obra de arte, houve quem pretendesse criar a ideia de que as suas formas são interpretáveis a qualquer indivíduo sem formação, ou que estão ao alcance de todos conforme a cultura, a informação, a sensibilidade e até o estado de espírito, isto é, a disposição fisiológica ou afectiva do indivíduo leitor, ouvinte ou observador. De facto estas são ideias sem qualquer fundamento, feitas por serem as mais apropriadas a néscios capitalistas compradores de Arte, aos “coleccionadores” dos tempos modernos. Aqui fica o que em Gil Vicente, Carta de Santarém, 1531, dissemos:
      “
A ideia bizarra de que a leitura de uma obra de arte (seja de poesia, música ou pintura) pode ter vários significados conforme a leitura de cada um, a sua cultura e seus gostos pessoais, à semelhança ou não de uma qualquer exegese, ou à semelhança da exegese bíblica, perece-nos uma fantasia de quem, sendo incapaz de realizar a leitura de uma obra de arte, assim decide justificar as suas interpretações por aquilo que melhor julga entender, e nem assim entendendo, a pretende explicar pelos sentidos (sensibilidade), pelos sentimentos (afeições), ou pela expressão de particularidades individuais, sempre mais características do leitor da obra do que do seu produtor. E se detentor de cátedra, querendo justificar a incapacidade de leitura da obra de arte, resolve teorizar, e a partir de citações de doutas citações perdidas de sentido por deslocação de objectivo, de cultura, de época ou até, com mais frequência, de objecto, assim estabelece os tais princípios mais optimizados para o vendedor apresentar uma obra ao coleccionador (o capitalista), ao museu, ou ao Estado, e assim ser bem sucedido na promoção das mais boçais manifestações humanas (ditas expressões) que enchem as colecções e centenas de museus municipais e nacionais ditos de arte contemporânea.
      Sem entrar em citações (de intertextualidades, ou outras) podemos dizer que todos os significados de uma obra de arte passam pelas vivências do seu autor, e estas são sempre pessoais (biológicas, afectivas, sensíveis, racionais, etc., como todas as actividades humanas, nem mais nem menos que em qualquer outra actividade e em pesos semelhantes para cada um dos aspectos), mas em Arte (cultura) as vivências são, sobretudo, sociais e culturais, entendendo-se que no social e no cultural se encontra a história do individuo produtor, e o histórico-social do meio em que vive, da sociedade política, económica e cultural do seu tempo.

      Alguns investigadores têm lido na obra dramática de Gil Vicente, e apresentado como trabalho científico, aquilo que dizem ser o carácter profundamente religioso do autor. Contudo, a sua autobiografia só pode ser lida na obra se de tal o autor nos tiver dado uma referência exacta, ou mesmo figurada. Ora, o autor não nos quis dar a conhecer praticamente nada da sua biografia, a não ser aquilo que referiu nas obras, todavia, apenas quando disso mesmo faz referência, ou se figura, mas nunca rebuscando-o em outras personagens (muito menos nas alegóricas), porque, quaisquer outras personagens que não tenham sido assinaladas com algo da sua pessoa por Gil Vicente, de modo nenhum pretendem personificar o autor.
      Ler uma devoção religiosa em Gil Vicente por intervenções de personagens que não figuram na peça o próprio autor é o mesmo que avaliar a devoção de Miguel Ângelo pela sua pintura na Capela Sistina, pelo sentido das figuras representadas, ou pelas suas esculturas religiosas. Ou a devoção de Leonardo da Vinci pelo sentido da sua pintura, ou pela cena ou figuras pintadas, por exemplo na Última Ceia, na Madona dos Rochedos ou qualquer outra. Quando sabemos que este último era agnóstico e o escultor também não tinha grandes preocupações religiosas…

      Em verdade a religiosidade de uma qualquer obra - se pode existir - não depende tanto da religiosidade do seu autor, mas do seu artifício, da sua capacidade de criar ilusão, em suma, das suas capacidades artísticas, mas não e nunca de uma maior ou menor religiosidade do autor ou mesmo da sua religião. Se assim fosse os melhores artistas da Igreja seriam as pessoas mais santas, ou mesmo os seus santos. Admitimos poderem existir, ocasionalmente, tais fenómenos, pois até encontramos obras de Arte religiosa realizadas por frades e freiras. Mas apesar disso, constatamos apenas que as obras da Arte, são feitos humanos, actividades criativas do homem em áreas diversas (artifícios bem longe da religião) e, os tais cientistas das letras, das Artes e humanidades, que vislumbram religiosidade em obras de Arte (ou mesmo em textos menos artísticos), ou que através dos objectos de Arte produzidos por alguém com o fim de dar algum prazer sensível e inteligível ao seu público, vislumbram religiosidade no próprio autor, deviam ter disso perfeita consciência.
      Sobre a carta de Santarém e o seu discurso aos clérigos na sequência das catástrofes de Janeiro de 1531 no vale do Tejo, já nos pronunciámos na análise que elaborámos dessa carta e do discurso nela incluído, concluindo que em Santarém o autor apenas está a usar, e muito bem, a sua retórica.

      Quanto ao que Luís Vicente classificou na Copilaçam como obras de devoção, devem corresponder àquilo que o autor na carta preâmbulo refere, e como evidenciámos antes, seria o rei de Portugal e não o autor das obras, que as considerava como obras de devoção. O que por vezes o autor nos diz, ou quem escreveu as palavras de dedicatória ou didascália inicial, é que esta ou aquela obra foi feita, representada, ou dirigida a alguém (sobretudo à rainha velha), caracterizando a referida pessoa como muito devota, cristianíssima, etc., talvez justificando assim os temas aparentes escolhidos e a introdução de personagens (eles ou elas, as personagens e ou público) muito devotas e cristãs dedicadíssimas.  
      Como o Auto da Alma do qual já publicámos a análise, Sibila Cassandra é uma peça complexa. E tal como os outros autos de Natal faz parte da saga da religião, e são estas as obras dramáticas onde Gil Vicente talvez mais e melhor dissimule as ideias que pretende expor. Ao afirmar que todos os autos de Natal fazem parte de uma saga da religião, não queremos dizer que a saga lhes esteja limitada, pois como o Auto da Alma e Rubena, outras peças fazem parte da saga da religião. Contudo, os autos de Natal surgem naqueles momentos em que sucedeu algo, em que surgiu alguma inquietação, ou mesmo alguma mudança nas bases que suportavam a ideologia da religião, na doutrina da Igreja católica romana. Assim, por exemplo:

         
1502 - em Pastoril Castelhano está figurada a situação de religiosidade requerida pela Corte portuguesa, pois Leonor a rainha velha o requereu, pelo que o autor, figurado em Gil Terrón, para produzir o próprio auto teve de aprender os achaques de Igreja (as lamúrias de Igreja) - assim o expressa na acção dramática e por ela - e como afirma, para continuar a produzir, vai enfrentar a situação e aceitar tais imposições;

         
1503 - em Quatro Tempos, além de muitas outras figurações de Triunfos, o autor representa a entrada na cena política europeia do Papa Júlio II, o Júpiter romano, onde nasce de novo Cristo, agora como Apolo filho de Júpiter;

         
1510 - em , figura-se uma visita à Capela Sistina por gente da Corte portuguesa… (o único auto de Gil Vicente sobre cujo conteúdo ainda mantemos dúvidas, pois aquilo que conhecemos - Copilaçam - parece ser apenas um fragmento);

         
1511 - em Sibila Cassandra o autor representa a quase clivagem com a convocação por Luís XII de um Concílio para Pisa, mas em Cassandra ninguém acredita, pois que afinal, sem as tais 32 galinhas, a ruptura resulta num fracasso, e assim não vai nascer nenhum Jesus a partir de Cassandra, a adesão à convocação para Latrão foi bem sucedida e a guerra está a ser bem preparada pelo Papa Júlio II;

         
1517-1519 - em Auto das Barcas representa-se, entre outras coisas (em particular referentes à Ordem de Cristo), a crise da Reforma (Latrão 1517) no seio da Igreja (Inferno), e quando, na segunda parte, põe o Natal no Purgatório, o autor especifica a fase de espera em que a crise na saga da religião se mantém, para depois com Gloria representar a questão (bem luterana) da salvação pela fé e não pelas obras, pois que pelas obras, todos aqueles senhores iriam directos ao inferno;

         
1523 - em Pastoril Português apresenta a Nova Ordem internacional (novo pastoril), a sua orquestração - baile mandado e alianças (casamentos) - e o novo cura, Papa Clemente VII, que substitui o outro, Adriano VI, da confiança política do Imperador, surge assim uma nova imagem (da Senhora) da Igreja que vai gerar muita expectativa;

         
1524 - em Feira, Natal de 1524 como se comprova, representam-se os conflitos criados pelas decisões firmes de Clemente VII (desliga-se da Banca dos Fugger) em confronto com o Império e os seus meios financeiros e políticos, tanto no seio da Igreja como na Europa, o seu reflexo nas ideologias (na religião) e na luta pelo Poder, e assim, pelo TEMPO (que tudo tem) começa-se a feira chamada das Graças;
        Note-se que na apresentação Mercúrio se refere à inquietação causada pelo alinhamento dos planetas (1524) e de tudo o que daí se adivinha, os medos causados por muitos aventureiros da adivinhação, dando o autor os necessários ensinamentos sobre a questão, dizendo que a previsão do futuro é sempre uma treta e, ainda durante o Auto, é referido o jubileu, ano do jubileu (1525) que se inicia, no Natal de 1524, 1525 pelo nascimento. E todo o seu mythos na acção dramática demonstra a sua datação em 1524, como evidencia a sua análise.
       Stanislav Zimic notou que, pela acção, o auto seria anterior a Maio de 1527.

       Entre 1524 e 1530 muitos autos fazem parte da saga da religião e ou da saga da Igreja, contudo não foram colocados em dia de Natal, porque a situação política de guerra directa do Estado Papal - Clemente VII - com o Imperador Carlos V levaram Gil Vicente a uma abundante e variada produção, que refere as constantes alterações da situação de guerra entre Francisco I e Carlos V para alcançarem o domínio da Igreja e, por essa via, da Europa. 

        
1534 - em Mofina Mendes o autor representa - na acção a aprendizagem da doutrina pela Virgem - o nascimento da Nova Igreja Inglesa, como consequência do Acto de Supremacia, de salientar a figuração de Thomas More como frade (louco pondo a própria vida em causa) dizendo para Henrique VIII que, se quer filhos que os adopte ou os compre (como aos escravos), e argumentando contra os catedráticos das Universidades europeias a quem o rei tinha requerido pareceres em seu apoio.


          Entre outros autos da Copilaçam - porque ainda há mais de uma dezena de autos que foram publicados mais tarde, de autor anónimo - listamos apenas alguns de entre os que fazem parte desta saga.

        ...de entre muitas outras sagas onde a religião surge mais dissimulada, fazem também parte da saga da religião ou, de outra forma, da saga da Igreja - a religião constitui a ideologia de todo o século XVI - autos tais como:

     
1507-1508 - Alma,
     
1521 - Rubena, (Cismena, com o Cisma Luterano)
     
1526 - Templo de Apolo,
      ...
     
1528 - Breve Sumário da História de Deus,
     
1528 - Diálogo de uns três judeus sobre a Ressurreição,
     
1528 - Festa;
      ...
     
1533 - Romagem dos Agravados onde o autor figura a sessão (já protestante, com a constituição da Igreja Protestante) que substituiu a missa católica, dirigida por Lutero figurado em Frei Paço;
     
1535 - Cananeia onde se representa uma visão das causas, do decorrer e das consequências previsíveis na sangrenta Nova Jerusalém - a teocracia de Münster - com a intervenção também brutal e sangrenta da aliança de Carlos V (da Inquisição) com os príncipes protestantes, logo após a entrada na cena política do Papa Paulo III;
e por fim, a
     
1536 - Floresta de Enganos, cuja descrição parcial já fizemos.


Adão e Eva, sendo expulsos do paraíso...
Pintura de Miguel Ângelo na Capela Sistina.

(c) 2008 - Sítio dedicado ao Teatro de Gil Vicente - actualizado com o progresso nas investigações.
GrammarNet

- Livros publicados no âmbito desta investigação, da autoria de Noémio Ramos:

978-989-977499-5 - Gil Vicente, Auto dos Quatro Tempos, Triunfo do Verão - Sagração dos Reis Católicos.
978-989-977498-8 - Gil Vicente, Auto dos Reis Magos, ...(festa) Cavalgada dos Reis.
978-989-977497-1 - Gil Vicente, Auto Pastoril Castelhano, A autobiografia em 1502.
978-989-977496-4 - Gil Vicente, Exortação da Guerra, da Fama ao Inferno.
978-989-977490-2 - Gil Vicente, Tragédia de Liberata, do Templo de Apolo à Divisa de Coimbra.
978-972-990009-9 - Gil Vicente, O Clérigo da Beira, o povo espoliado - em pelota.
978-972-990008-2 - Gil Vicente, Carta de Santarém, 1531 - Sobre o Auto da Índia.
978-972-990007-5 - Gil Vicente, o Velho da Horta, de Sibila Cassandra à "Tragédia da Sepultura".
978-972-990006-8 - Gil Vicente, Auto da Visitação. Sobre as origens.
978-972-990005-1 - Gil Vicente e Platão - Arte e Dialéctica, Íon de Platão.
978-989-977494-0 - Gil Vicente, Auto da Alma, Erasmo, o Enquiridion e Júlio II... 
(2ª Edição)
978-972-990004-4 - Auto da Alma de Gil Vicente, Erasmo, o Enquiridion e Júlio II...

- Outras publicações:
978-972-990000-6 - Francês - Português, Dicionário do Tradutor. - Maria José Santos e A. Soares.
978-972-990002-3 - Os Maios de Olhão e o Auto da Lusitânia de Gil Vicente. - Noémio Ramos.



Renascença e Reforma - líderes políticos e ideólogos - ideologia e História da Europa
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© Noémio Ramos
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