Da concepção do Homem como Ser individual:
Ao iniciar o capítulo sétimo Erasmus diz-nos: permito-me trazer aqui a divisão que Orígenes faz do homem, que seguindo São Paulo distingue três partes: espírito, alma e carne. Na carta aos Tesalonicenses junta as três dizendo: “que todo o vosso ser, o espírito, a alma e o corpo, se conservem sem mancha…”
Destas fontes deduz Orígenes a divisão tripartida do homem:
[1] o corpo ou a carne, a nossa parte mais vil, donde, por culpa dos nossos pais, a antiga e astuta serpente imprimiu a lei do pecado pela qual somos provocados aos vícios e nos unimos ao diabo se somos vencidos.
[2] O espírito, pelo qual expressamos a semelhança com a natureza divina, e na qual o dedo do criador esculpiu essa lei eterna da rectidão, nascida do arquétipo da sua própria mente, ou seja conforme ao seu Espírito. Por esta parte nos unimos com Deus e fazemos com ele uma e mesma coisa.
[3] Por fim, a terceira parte, que está entre as duas anteriores, é a alma, e nela residem os sentidos e os demais sentimentos naturais. Como quem reside numa cidade dividida em fracções, a alma não pode deixar de se alienar com uma das outras partes. Está continuamente a ser solicitada por uma e outra parte, mas ela é livre de se inclinar pela parte que quiser. Se, vencendo a carne, se inclina para o partido do espírito, se fará espiritual. Mas se se rebaixa aos desejos da carne, degenerará em carnalidade.
Assim, pois, o espírito faz-nos deuses; a carne, bestas: a alma, homens. O espírito faz-nos bons; a carne maus; a alma nem bons nem maus. O espírito deseja as coisas celestes; a carne as doces; a alma, as coisas necessárias. O espírito eleva-nos ao céu; a carne empurra-nos para o inferno; a alma nem sequer tem poder algum. Todo o carnal é baixeza. Todo o espiritual, perfeito. Tudo o que é da alma é mediano e indiferente. (...)
A alma está entre dois caminhos – a carne e o espírito
A alma está entre dois caminhos: a carne, a empurra por um, e o espírito por outro. (…) A alma está perplexa, e oscilando, inclina-se para um ou outro lado. Converte-se naquilo a que se inclinar, ou seja, será aquilo a que chegar…
Então, acostuma-te a examinar a ti mesmo com todo o cuidado.
Erasmus acabou de concluir a sua concepção do indivíduo, e no capítulo seguinte enuncia um conjunto de regras, que hão-de servir a encontrar o caminho para a clara luz da vida espiritual.
Mas atenção: A cegueira, como uma nuvem de ignorância, obscurece o juízo da razão (…), a cegueira dá-nos uma falsa visão na hora da decisão: faz com que sigamos o pior em vez do melhor…
Ainda antes das regras encontramos três recomendações: (1) que distingas entre o que queres e o que hás-de evitar, por isso há que corrigir a cegueira para não vacilar na hora da escolha; (2) uma vez conhecido o mal, hás-de amar o bem e aborrecer com o mal; (3) pois hás-de te manter no caminho começado. (…)
Terás que superar a tua ignorância para poderes ver para onde hás de ir. (…)Há que levantar a moral, pois uma vez que hajas iniciado o caminho da virtude não mais vaciles, não pares nem te afastes dele. Uma vez posta a mão no arado, nem olhes para trás. Deves até alegrar-te, como gigante que se dispõe a percorrer a sua estrada, olhando sempre em frente, esquecendo o que fica para trás (...)
Não há que seguir a opinião das gentes
Do visível ao invisível, do sensível ao inteligível, passando por Platão.
Das regras destacam-se duas: a regra cinco, Do visível ao invisível, o caminho para uma vida pura e espiritual; e a regra seis, não há que seguir a opinião das gentes; às quais o autor dedicou a maior parte das suas palavras, quase metade das páginas do livro.
Imaginemos dois tipos de mundos, um inteligível, outro visível. Ao inteligível podemos chamar angélico. Participando nestes dois, pensemos num terceiro mundo, o homem, que é visível segundo o corpo, invisível pela alma. Dado que somos peregrinos do mundo visível, não nos podemos deter em nenhum lugar.
(…) E o mesmo se haverá de aplicar à leitura de todo o escrito ou obra, que consta de um sentido literal, superficial, a que chamamos corpo, e outro sentido interior, profundo, que chamamos alma. Indiferente ao sentido superficial, te haverás de empregar a examinar a fundo o sentido oculto. Tais são as obras de todos os poetas e as dos filósofos platónicos. Mas de maneira particular a Sagrada Escritura (…)
Deus é Espírito, e os que o adoram devem fazê-lo em espírito e em verdade (…) desprezando mesmo a comida da sua carne e a bebida do seu sangue se não é comido e bebido espiritualmente. A que crês que se referia quando dizia: “a carne de nada aproveita, é o espírito que vivifica” (João 6,64). (…)
A eucaristia, a Virgem e os Santos
É possível que celebres a eucaristia todos os dias e vivas egoisticamente sem te preocupares com as desgraças do teu próximo. Se é assim, escuta: estás vivendo na carne do sacramento. Mas se celebrando a eucaristia, te identificas com o que significa a sua celebração, fazes um mesmo espírito com o de Cristo, um mesmo corpo com o corpo de Cristo, um membro vivo da Igreja. (…)
Veneras os santos e gostas de tocar as suas relíquias, mas desprezas a melhor que eles nos deixaram, isto é, desprezas os seus exemplos de vida santa. Nenhum serviço mais grato a Maria que a imitação da sua humildade. (…)
As formas exteriores de culto, rituais, relíquias…
Contemplas atónito a túnica e o sudário que se diz foi de Cristo, e adormeces lendo as suas palavras. Consideras-te afortunado por ter em tua casa um pedacito da cruz de Cristo. Mas isso não é nada se comparado com o conservar do mistério da cruz no teu coração (…). Adoras o madeiro da cruz; importa mais seguir o mistério da cruz. (…)
Não se condenam as obras corporais, mas hão-de se preferir as espirituais.
Deus é espírito e satisfaz-se com os sacrifícios espirituais. (…)
Não se condenam as formas visíveis de culto, mas Deus não se aplaca senão com a piedade invisível. (...)
Caminhemos, não tristes e sem firmeza (…), caminhemos melhor como vencedores (…) fortes e constantes (…) cheios de alegria e de sabedoria.
Não penses pois que algo está bem porque pessoas importantes ou porque a maioria o dizem, fazem ou praticam, senão que, em definitivo está bem porque se ajusta à regra de Cristo. (…)
Pensa neste outro engano.
A gente chama inteligente e bem informado a quem capta todo o tipo de rumores e sabe o que sucede em todo o mundo: o vaivém dos mercados, o que trama o rei de Inglaterra, as novidades de Roma, o que sucede em França, como vivem os dinamarqueses e os citas, e, o que é que pensam os políticos. Em suma, a gente chama sábio ao homem que pode falar de todos os tipos de assuntos ante todas as classes de pessoas. Contudo, poderá haver algo mais néscio e infantil que meter-se em assuntos que estão distantes e que não interessam para nada, e não pensar no que sucede em ti mesmo e que só a ti diz respeito? (...)
Os seus saborosíssimos manjares
O tema dos manjares, ou utilizando outra palavra mais abrangente para o autor do Auto da Alma, que embora também se refira aos manjares, preferiu as iguarias, é uma metáfora recorrente em toda esta obra de Erasmus:
… Todavia o verdadeiro e único deleite da alma é o gozo da consciência pura. Os seus saborosíssimos manjares são o estudo das Sagradas Escrituras; os seus dulcíssimos cantos os salmos do Espírito Santo; a mais festiva companhia, a comunhão de todos os Santos; a mais suave delícia, a fruição da Verdade…
[fragmentos do Enquiridion traduzidos do Inglês e do Castelhano, por Noémio Ramos]