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O Teatro de Gil Vicente
E pera declaração
desta obra santa et cetra...,
quisera dizer quem são
as figuras que virão

por se entender bem a letra.

  ... em  Romagem dos Agravados.
Lendo o Auto da India de Gil Vicente
Ler Erasmo e Gil Vicente

As figuras
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em Obras


As suas obras dramáticas,
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Datação das obras, dos Autos de Gil Vicente
Gil Vicente, artista da Renascença, reinventor do Teatro
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Enquiridion, Manual do Cavaleiro Cristão Desiderius Erasmus (Erasmo de Roterdão)
A obra mais publicada no século xvi
- cerca de 150 edições -
"o ovo que Lutero chocou"...

Júlio II figura Moises
Enchiridion de Erasmo
Enquiridion, Erasmo
Erasmo de Roterdão
[citações do Enquiridion traduzidos do Inglês e do Castelhano, por Noémio Ramos]
O mundo enganador - há que estar sempre de atalaia

Logo ao iniciar do primeiro capítulo o autor apresenta a situação de guerra permanente do indivíduo com o mundo, toda a vida dos mortais não é mais que uma militia, (...) que a maior parte da gente anda enganada, pois o mundo enganador tem embargado os seus pensamentos com enganos lisonjeiros... Olha em teu redor e logo verás que demónios terríveis armados de mil enganos e ardis espreitam a tua ruína... Para onde quer que te voltes, adiante ou atrás, à esquerda ou à direita, assedia-te este mundo que está baseado no mal. E por isso é inimigo de Cristo e o aborrece. (...)
Por mulher, hás-de entender a parte carnal do homem

Umas vezes arremete contra nós em guerra aberta... Outras vezes, com largas e vãs promessas convida-nos à traição... Ademais, está sempre a serpente infernal e sedutora (...) insidiando o calcanhar de nossa mulher que já foi enganada uma vez. Por mulher, hás-de entender a parte carnal do homem. (...)
E como se isto fosse pouco, levamos dentro dos esconderijos do coração um inimigo mais que íntimo, tanto mais perigoso quanto mais domesticado. Este é o velho e terrestre Adão, na conversação e amizade mais que vizinho e nos desejos mais que inimigo. (...)

Do “espírito de corpo” e do Corpo de Deus

Mas este adversário ataca a tua alma imortal. Não é só o teu corpo que é arrastado para a tumba, não é senão o teu corpo com a tua alma que se fundem no inferno... Se Deus está connosco, quem estará contra nós? (...) Cuida portanto de ser membro do seu Corpo e tudo te será possível unido à Cabeça. (...)
Com Cristo como Cabeça, recorda-te que a vitória não chegará sem um esforço da tua parte. (...) Por ele certamente venceremos, na condição de que, a seu exemplo lutemos (...), de maneira que confiando na Graça Divina, não esmoreças nem te descuides, nem te desanimes largando as armas. (...)

Das armas do cavaleiro cristão
Há que estar sempre preparado para o combate, não se pode baixar a guarda porque o nosso inimigo não descansa. …Das armas cristãs falaremos em concreto mais adiante, agora falarei sucintamente de duas armas de que há de dispor quem começa a lutar. …Estas armas são a oração e a ciência. …A oração pede, mas a ciência sugere o que há-de pedir. …A ciência, por sua vez, ensina como orar em nome de Jesus. …A oração é, por conseguinte, mais poderosa, pois fala com Deus; a ciência não é todavia menos necessária… A Ciência a que Erasmus se refere é a Bíblia, a Ciência está nas Sagradas Escrituras.
Sobre a oração

Quando oras, pensas acaso nos muitos salmos que recitas? Crês que no muito falar está a virtude da oração? …Não o grito nos lábios, senão o desejo ardente do espírito, é o que mais fere - como voz penetrante - os ouvidos de Deus. [Assim, em silêncio], hás-de levantar os teus pensamentos ao céu, de onde te há-de vir a ajuda. Mas haverás de levantar também as mãos ao alto. (...)
Da cultura grega e romana, a leitura pelo espírito

A literatura pagã forma e vigora o engenho das crianças preparando-as muito bem para o conhecimento da Escritura… Direi, não obstante que: Assim como a Sagrada Escritura produz pouco fruto se te fixas e contentas com a letra, da mesma maneira, a poesia de Homero e Virgílio será de pequena utilidade se não tens em conta que toda ela é alegórica, coisa que ninguém negará por pouco que haja saboreado a sabedoria dos antigos... Preferiria também que de entre os filósofos seguisses os platónicos, já que tanto nas suas ideias como na sua maneira de falar se aproximam mais do modelo dos profetas e do evangelho…
Considera pois, que nada do que vês com os teus olhos e tocas com as tuas mãos é tão real como as verdades que aqui lês
[nas Sagradas Escrituras]. Passarão o céu e a terra, mas nem uma só vírgula ou acento da palavra de Deus passará sem que se cumpra. Os homens se enganarão e errarão, todavia a palavra de Deus não engana nem erra. ...Dos intérpretes da Sagrada Escritura hás-de eleger todos aqueles que mais se afastam da letra. Tais são por exemplo, depois de São Paulo, Orígenes, Santo Ambrósio, São Jerónimo, Santo Agostinho. (...)

A espada luminosa do espírito


Erasmus considera que as armas cristãs, as armas do soldado, cavaleiro cristão, são o Saber, conhecimento das Sagradas Escrituras, estudadas e interpretadas no seu Espírito e não na sua Letra: “a letra mata, o espírito vivifica”.
A descrição das armas tem origem nas cartas de São Paulo: Encontrarás “as armas de Deus para que possais resistir num dia mau”; encontrarás “as armas da justiça, as da direita e as da esquerda”; encontrarás “cingida a vossa cintura com a verdade e a justiça como couraça”, “embraçando sempre o escudo da fé, para que possais apagar com ele todos os acesos dardos do maligno”; encontrarás também “o elmo da salvação e a espada do Espírito, que é a Palavra de Deus”. As Sagradas Escrituras te darão pois essa força das armas se te entregas a elas de todo o coração, de maneira que já não necessites mais dos meus conselhos…
(...) Que doce confiança dão a Paulo essas armas de luz (...) As Sagradas Escrituras te darão essa força das armas se te entregas a elas de todo o coração. (...)
Aqui tens pois recém preparado para ti, um enquiridion, uma adaga ou pequeno punhal, que nunca hás-de largar da mão. (...)

Sobre as três partes do Homem:
Espírito, Alma e Carne

Da concepção do Homem como Ser individual:
Ao iniciar o capítulo sétimo Erasmus diz-nos: permito-me trazer aqui a divisão que Orígenes faz do homem, que seguindo São Paulo distingue três partes: espírito, alma e carne. Na carta aos Tesalonicenses junta as três dizendo: “que todo o vosso ser, o espírito, a alma e o corpo, se conservem sem mancha…”
Destas fontes deduz Orígenes a divisão tripartida do homem:
[1] o corpo ou a carne, a nossa parte mais vil, donde, por culpa dos nossos pais, a antiga e astuta serpente imprimiu a lei do pecado pela qual somos provocados aos vícios e nos unimos ao diabo se somos vencidos.
[2] O espírito, pelo qual expressamos a semelhança com a natureza divina, e na qual o dedo do criador esculpiu essa lei eterna da rectidão, nascida do arquétipo da sua própria mente, ou seja conforme ao seu Espírito. Por esta parte nos unimos com Deus e fazemos com ele uma e mesma coisa.
[3] Por fim, a terceira parte, que está entre as duas anteriores, é a alma, e nela residem os sentidos e os demais sentimentos naturais. Como quem reside numa cidade dividida em fracções, a alma não pode deixar de se alienar com uma das outras partes. Está continuamente a ser solicitada por uma e outra parte, mas ela é livre de se inclinar pela parte que quiser. Se, vencendo a carne, se inclina para o partido do espírito, se fará espiritual. Mas se se rebaixa aos desejos da carne, degenerará em carnalidade.
Assim, pois, o espírito faz-nos deuses; a carne, bestas: a alma, homens. O espírito faz-nos bons; a carne maus; a alma nem bons nem maus. O espírito deseja as coisas celestes; a carne as doces; a alma, as coisas necessárias. O espírito eleva-nos ao céu; a carne empurra-nos para o inferno; a alma nem sequer tem poder algum. Todo o carnal é baixeza. Todo o espiritual, perfeito. Tudo o que é da alma é mediano e indiferente. (...)


A alma está entre dois caminhos - a carne e o espírito

A alma está entre dois caminhos: a carne, a empurra por um, e o espírito por outro. (…) A alma está perplexa, e oscilando, inclina-se para um ou outro lado. Converte-se naquilo a que se inclinar, ou seja, será aquilo a que chegar…

Então, acostuma-te a examinar a ti mesmo com todo o cuidado.
Erasmus acabou de concluir a sua concepção do indivíduo, e no capítulo seguinte enuncia um conjunto de regras, que hão-de servir a encontrar o caminho para a clara luz da vida espiritual.
Mas atenção: A cegueira, como uma nuvem de ignorância, obscurece o juízo da razão (…), a cegueira dá-nos uma falsa visão na hora da decisão: faz com que sigamos o pior em vez do melhor…
Ainda antes das regras encontramos três recomendações: (1) que distingas entre o que queres e o que hás-de evitar, por isso há que corrigir a cegueira para não vacilar na hora da escolha; (2) uma vez conhecido o mal, hás-de amar o bem e aborrecer com o mal; (3) pois hás-de te manter no caminho começado. (…)
Terás que superar a tua ignorância para poderes ver para onde hás de ir. (…)Há que levantar a moral, pois uma vez que hajas iniciado o caminho da virtude não mais vaciles, não pares nem te afastes dele. Uma vez posta a mão no arado, nem olhes para trás. Deves até alegrar-te, como gigante que se dispõe a percorrer a sua estrada, olhando sempre em frente, esquecendo o que fica para trás (...)

Não há que seguir a opinião das gentes
Do visível ao invisível, do sensível ao inteligível, passando por Platão.
Das regras destacam-se duas: a regra cinco, Do visível ao invisível, o caminho para uma vida pura e espiritual; e a regra seis, não há que seguir a opinião das gentes; às quais o autor dedicou a maior parte das suas palavras, quase metade das páginas do livro.
Imaginemos dois tipos de mundos, um inteligível, outro visível. Ao inteligível podemos chamar angélico. Participando nestes dois, pensemos num terceiro mundo, o homem, que é visível segundo o corpo, invisível pela alma. Dado que somos peregrinos do mundo visível, não nos podemos deter em nenhum lugar.
(…) E o mesmo se haverá de aplicar à leitura de todo o escrito ou obra, que consta de um sentido literal, superficial, a que chamamos corpo, e outro sentido interior, profundo, que chamamos alma. Indiferente ao sentido superficial, te haverás de empregar a examinar a fundo o sentido oculto. Tais são as obras de todos os poetas e as dos filósofos platónicos. Mas de maneira particular a Sagrada Escritura (…)
Deus é Espírito, e os que o adoram devem fazê-lo em espírito e em verdade (…) desprezando mesmo a comida da sua carne e a bebida do seu sangue se não é comido e bebido espiritualmente. A que crês que se referia quando dizia: “a carne de nada aproveita, é o espírito que vivifica” (João 6,64). (…)

A eucaristia, a Virgem e os Santos
É possível que celebres a eucaristia todos os dias e vivas egoisticamente sem te preocupares com as desgraças do teu próximo. Se é assim, escuta: estás vivendo na carne do sacramento. Mas se celebrando a eucaristia, te identificas com o que significa a sua celebração, fazes um mesmo espírito com o de Cristo, um mesmo corpo com o corpo de Cristo, um membro vivo da Igreja. (…)
Veneras os santos e gostas de tocar as suas relíquias, mas desprezas a melhor que eles nos deixaram, isto é, desprezas os seus exemplos de vida santa. Nenhum serviço mais grato a Maria que a imitação da sua humildade. (…)

As formas exteriores de culto, rituais, relíquias…

Contemplas atónito a túnica e o sudário que se diz foi de Cristo, e adormeces lendo as suas palavras. Consideras-te afortunado por ter em tua casa um pedacito da cruz de Cristo. Mas isso não é nada se comparado com o conservar do mistério da cruz no teu coração (…). Adoras o madeiro da cruz; importa mais seguir o mistério da cruz. (…)
Não se condenam as obras corporais, mas hão-de se preferir as espirituais.
Deus é espírito e satisfaz-se com os sacrifícios espirituais. (…)
Não se condenam as formas visíveis de culto, mas Deus não se aplaca senão com a piedade invisível. (...)


Caminhemos, não tristes e sem firmeza (…), caminhemos melhor como vencedores (…) fortes e constantes (…) cheios de alegria e de sabedoria.
Não penses pois que algo está bem porque pessoas importantes ou porque a maioria o dizem, fazem ou praticam, senão que, em definitivo está bem porque se ajusta à regra de Cristo. (…)
Pensa neste outro engano.
A gente chama inteligente e bem informado a quem capta todo o tipo de rumores e sabe o que sucede em todo o mundo: o vaivém dos mercados, o que trama o rei de Inglaterra, as novidades de Roma, o que sucede em França, como vivem os dinamarqueses e os citas, e, o que é que pensam os políticos. Em suma, a gente chama sábio ao homem que pode falar de todos os tipos de assuntos ante todas as classes de pessoas. Contudo, poderá haver algo mais néscio e infantil que meter-se em assuntos que estão distantes e que não interessam para nada, e não pensar no que sucede em ti mesmo e que só a ti diz respeito? (...)

Os seus saborosíssimos manjares

O tema dos manjares, ou utilizando outra palavra mais abrangente para o autor do Auto da Alma, que embora também se refira aos manjares, preferiu as iguarias, é uma metáfora recorrente em toda esta obra de Erasmus:
… Todavia o verdadeiro e único deleite da alma é o gozo da consciência pura. Os seus saborosíssimos manjares são o estudo das Sagradas Escrituras; os seus dulcíssimos cantos os salmos do Espírito Santo; a mais festiva companhia, a comunhão de todos os Santos; a mais suave delícia, a fruição da Verdade…

[fragmentos do Enquiridion traduzidos do Inglês e do Castelhano, por Noémio Ramos]

(c) 2008 - Sítio dedicado ao Teatro de Gil Vicente - actualizado com o progresso nas investigações.
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- Livros publicados no âmbito desta investigação, da autoria de Noémio Ramos:

978-989-977499-5 - Gil Vicente, Auto dos Quatro Tempos, Triunfo do Verão - Sagração dos Reis Católicos.
978-989-977498-8 - Gil Vicente, Auto dos Reis Magos, ...(festa) Cavalgada dos Reis.
978-989-977497-1 - Gil Vicente, Auto Pastoril Castelhano, A autobiografia em 1502.
978-989-977496-4 - Gil Vicente, Exortação da Guerra, da Fama ao Inferno.
978-989-977490-2 - Gil Vicente, Tragédia de Liberata, do Templo de Apolo à Divisa de Coimbra.
978-972-990009-9 - Gil Vicente, O Clérigo da Beira, o povo espoliado - em pelota.
978-972-990008-2 - Gil Vicente, Carta de Santarém, 1531 - Sobre o Auto da Índia.
978-972-990007-5 - Gil Vicente, o Velho da Horta, de Sibila Cassandra à "Tragédia da Sepultura".
978-972-990006-8 - Gil Vicente, Auto da Visitação. Sobre as origens.
978-972-990005-1 - Gil Vicente e Platão - Arte e Dialéctica, Íon de Platão.
978-989-977494-0 - Gil Vicente, Auto da Alma, Erasmo, o Enquiridion e Júlio II... 
(2ª Edição)
978-972-990004-4 - Auto da Alma de Gil Vicente, Erasmo, o Enquiridion e Júlio II...

- Outras publicações:
978-972-990000-6 - Francês - Português, Dicionário do Tradutor. - Maria José Santos e A. Soares.
978-972-990002-3 - Os Maios de Olhão e o Auto da Lusitânia de Gil Vicente. - Noémio Ramos.



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