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Antes de mais queremos transcrever algumas palavras que melhor que nós respondem pelo trabalho que estamos a desenvolver. Palavras pronunciadas em 1933 numa conferência que, apesar do tempo, mantêm a maior actualidade. Uma Conferência realizada na inauguração da actividade da União Cultural "Mocidade livre" em 25 de Maio de 1933, republicada em Separata da "Gazeta de Matemática" nº 129-132, Lisboa 1976. |
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“A cultura integral do indivíduo - problema central no nosso tempo” (…) Não estará errado pela base o título e intenção desta conferência? É o nosso tempo susceptível de mais do que pequenos problemas parcelares sem conexão uns com os outros e reflectindo, na sua pulverização, o amorfismo actual? É a estas perguntas, que a mim mesmo tenho posto com angústia, que vou procurar dar uma resposta. Para ela, não reivindico outra categoria de valor que não seja a honestidade com que foi procurada. Sei demasiado, para que outro mérito pretenda ver-lhe atribuído, quanto são falíveis ainda os juízos mais prudentes, e, se não receio o erro, é só porque estou sempre pronto a corrigi-lo. (…) Bento de Jesus Caraça |
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O criado do Velho - personagem do Auto do Velho da Horta, a peça que, como afirmámos, se encontra na sequência do Auto de Sibila Cassandra (1511) - o Parvo, constitui uma figuração de Erasmo de Roterdão (padre da Igreja) e não de um Cardeal, ou qualquer outro servidor (criado) da Igreja, como ficou erradamente expresso na primeira edição do livro em causa. |
| … Todavia o verdadeiro e único deleite da alma é o gozo da consciência pura. Os seus saborosíssimos manjares são o estudo das Sagradas Escrituras; os seus dulcíssimos cantos os salmos do Espírito Santo; a mais festiva companhia, a comunhão de todos os Santos; a mais suave delícia, a fruição da Verdade… (Erasmo de Roterdão - Enchiridion, 1503) |
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Já no Auto da Alma, na segunda parte da peça, Gil Vicente tinha usado a metáfora dos manjares, nas iguarias, mas aí invertendo correlativamente a situação, aplicando-a para criticar Júlio II nas formas exteriores do culto, rituais e adoração das relíquias. No Velho da Horta o jantar (os manjares) são tomados na perspectiva de Erasmo, como na transcrição acima, na comunhão de todos. O objectivo do Parvo, pela sua caracterização na acção dramática da peça, é manter o casamento (aliança) entre a Velha (Igreja em Concílio, Pisa e Latrão) e o Velho (Papa Júlio II), e para isso desenvolve todos os esforços. Nas palavras de Erasmo: Cuida portanto de ser membro do seu Corpo e tudo te será possível unido à Cabeça. As atitudes sempre insistentes do Parvo são de conciliação (preferência pelo conciliarismo) entre o Velho e a Velha, mas tem também sempre, como pressuposto, requerer a indispensável presença do Velho (do Papa em Concílio) no jantar, comendo do mesmo que a Velha preparou (alimentando o seu espírito com o preparado em Concílio) porque, senão, vai procurar outro dono (ao outro Concílio, conciliábulo de Pisa... Acresce, portanto, serem as refeições, a panela cozida, preparadas pela Velha - os alimentos do intelecto preparados pela Igreja para serem tomados em conjunto (em Concílio) - pois, também do outro lado (de Pisa) há expectativa de um acordo: veio lá meu tio (Luís XII) estava minha dona (Igreja) foi-se-lhe o lume pela panela (a decisão - lume - de convocar o Concílio para Pisa), e, se não houver acordo, acerto ou concertação nas concepções, haverá que acarear as decisões (dos dois concílios: Pisa e Latrão): senam acertá-lo acario... Toda a acção do Parvo é configurada, pela sequência da caracterização das ideologias (até então publicadas) de Erasmo, conforme Gil Vicente as representa no Auto da Alma (1508) e em Sibila Cassandra (1511). O Concílio de Pisa (conciliábulo), no qual foi exigida por convocatórias a presença do Papa, devido aos protestos da população de Pisa mudou-se para Milão (então em poder dos franceses) e, depois, em Junho de 1512 para Lyon, mas este “concílio” nunca chegou a ser fechado ou concluído. Luís XII manteve até à morte as decisões de Pisa com a destituição do Papa Júlio II, e só em 1515, o novo rei de França, Francisco I, aceitou aderir ao Concílio de Latrão anulando todas as decisões de Pisa. |
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Gil Vicente figura deste modo o que considerou ser a posição de Erasmo no confronto ideológico entre o conciliarismo e o Poder Papal no momento histórico, entre o início do ano e Agosto de 1512, pois, a peça O Velho da Horta foi com certeza representada pela primeira vez em 1 de Novembro de 1512, dia de todos os Santos, como o comprova a ladainha a todos os santos marteirados - (24) doze santos cortesãos e doze santas damas da Corte, - celebrando em Lisboa, no mesmo dia, a reabertura do Jardim das estátuas (a Horta), a inauguração do corredor de Bramante, - no museu do Vaticano - abrindo um acesso glorioso entre as estátuas romanas à Capela Sistina, para aí desfrutar da pintura de Miguel Ângelo na abóboda da Capela (as ervas novas): |
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PARVO: Dono, veo lá meu tio / estava minha dona entam ela / foi-se-lhe o lume pola panela / senam acertá-lo acario (260). PARVO: ... está a panela cozida. / Minha dona quer jentar! // Nam quereis? Está tudo preparado para que, em conjunto (em concílio) se alimentem as almas, para que cada um alimente o seu espírito (concepção de Erasmo). VELHO: Nam hei de comer que me pês / nem quero comer bocado. Desse jantar (a mais festiva companhia, a comunhão de todos os Santos) o Velho não quer comer, nem por nada, nem qualquer migalha (não aceitará qualquer decisão)! PARVO: E se vós dono morreis / entam despois nam falareis / senam finado. A insistência do Parvo (Erasmo) em manter o casamento (aliança entre o Papa e a Igreja em Concílio) repete-se de diversos modos, ele adverte o Velho de que a sua morte se aproxima e que, depois, apenas irão ficar as suas relíquias (bichosas) que, dificilmente irão “dizer” alguma coisa. As expressões que se seguem na peça, sobre a degradação do corpo do finado Velho, figuram as críticas de Erasmo aos costumes de conservar e adorar relíquias, as dos santos, como as dos Papas. O que então era comum na Europa. |
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Surge também a crítica pela falta de resposta do Papa à requerida presença nas reuniões dos Concílios (de Pisa e de Latrão), enquanto cardeais e bispos disputam e alimentam o seu intelecto, Júlio II desfruta das Artes do seu tempo: PARVO: ... estão os outros jentando / e cantaremos!? Obedecendo ao Velho, o Parvo sai para ir buscar uma viola e, no regresso do Parvo, o Velho exclama perguntando: VELHO: Hei de morrer!? PARVO: Minha dona quer comer... / Vinde eramá, dono, que brada! / Olhai, eu fui-lhe dizer / dessa rosa, e do tanger, / e está raivada. |
| Erasmo de Roterdão, defendia uma Igreja simples e humana, baseada num espírito de corpo, como Corpo de Deus (São Paulo) e opunha-se à riqueza, ostentação e opulência do Papado e da Igreja Romana - opunha-se às enormes despesas com a Basílica e com as Artes, - tal como era concebida por Júlio II… Como Erasmo, muitas outras vozes na época (sobretudo os secretos seguidores do "mártir", o louco dominicano, Savonarola) se opunham à ostentação da riqueza. |
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Velho: Vai-te tu filho Joane e dize que logo vou que nam há tanto que cá estou. Parvo: Ireis vós pera o Sanhoane? (310) |
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O Velho manda o Parvo ir a São João de Latrão (V Concílio 1512-1517), vai-te tu, filho, Joane… Pois o Parvo insistia na necessária união com a Velha. Erasmo encontrava-se entre Pisa e Latrão - um pé num lado outro no outro - e, com Júlio II, estava mais perto do conciliarismo (não tanto em Pisa, mas em Latrão), todavia a sua posição tendia a aproximar-se do Papa. O Velho insiste na sua ida à igreja de São João de Latrão. O Parvo concorda e insiste com o Velho para ele ir também ao Concílio de Latrão: Ireis vós pera o Sanhoane? A oposição de Erasmo a Júlio II - estranhamente, ao contrário do que acontecerá com Leão X - era bem conhecida na época, dando azo a anedotas de parte a parte. E nesta peça, o Parvo (Erasmo) crítica e não aceita, de modo nenhum, a atitude do Velho (Júlio II) de permanecer quase alheio ao que se passa nas reuniões conciliares dos Bispos e Cardeais: PARVO: Polo céu sagrado / que meu dono está danado! / Viu ele o demo no ramo / se ele fosse namorado / logo eu vou [ao conciliábulo] / buscar outro amo. |
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*** Assim (até nova edição), este texto completa e emenda pontualmente o texto do livro (Gil Vicente, O Velho da Horta, de Sibila Cassandra à "Tragédia da Sepultura") no que se refere ao que consta em: Figurando o conflito histórico. Com esta correcção, a acção dramática da peça fica mais rica e, numa encenação, para orientar a actuação e as expressões do actor no papel do Parvo, é importante ter presente esta componente da figura representada no Parvo. Não ver desde logo, na personagem do Parvo, a figura de Erasmo de Roterdão pode também ter tido origem no facto de o nosso inconsciente não aceitar a personificação dele como um Parvo. Contudo, havíamos já verificado que, em muitos casos, no teatro de Gil Vicente surgem grandes figuras internacionais personificadas como Bobos e Parvos. |
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Sem receio de entrar novamente em erro, …porque estou sempre pronto a corrigi-lo. Faro, 21 de Maio de 2011. Noémio Ramos |