O objecto de uma crítica é, sobretudo, uma avaliação do evento que se apresenta como a encenação de uma peça - a acção dramática recriada em cena - pelo seu confronto com a concepção que o observador (crítico) faz da mesma Obra.
         Esta avaliação pode ser explicada e levada ao pormenor a sua análise, ou pode nem sequer merecer a pena tal esforço quando a encenação de uma peça se apresentar ridícula ou mesmo boçal.

         A concepção de uma obra de Arte de Teatro é sempre aberta às mais variadas - ao infinito de formulações da obra - reconstruções da acção dramática que constitui uma Obra de Teatro, porque a Obra de Teatro é a formulação da acção dramática. Encenar é dar uma forma concreta à acção dramática criada pelo autor da Obra, recriar o evento, dar-lhe forma criando uma encenação da acção.
         Referimo-nos, evidentemente, ao Teatro da Renascença e mais especificamente ao teatro de Gil Vicente.
         Se no evento encenado não se vê (lê) a acção dramática da Obra, então a peça está, pura e simplesmente, a ser danificada ou mesmo destruída. E isto pode acontecer por várias razões, muitas das quais já Aristóteles tratou com objectividade na sua Poética... Contudo, foi Platão quem primeiro tratou a questão.

         No Íon Platão trata a questão da destruição da Obra de Homero no acto da sua interpretação pelo rapsodo - seja como um músico deve interpretar uma pauta musical, seja como o actor, rapsodo, ou director de cena, deve interpretar o texto de uma Obra, - e em geral destruída pelos próprios homéridas, em especial por Íon.
         Qualquer rapsódia, qualquer parte de uma obra é apenas isso, apenas um fragmento da letra de uma obra de teatro.
         E em Hípias (menor) demonstra como o sábio (mais sabedor que os sete sábios) Hípias, não tem um mínimo de capacidade para captar o sentido de uma Obra de Arte, não se apercebendo da acção dramática, nem sequer da sua trama na forma aparente, sendo incapaz de alcançar a forma inteligível da Obra de Arte, e por isso quando pretende ensinar (e fazer conferências sobre o assunto) está a produzir involuntáriamente um mal, fornecendo falsa informação aos espíritos mais jovens; o que é pior que o artista que produz voluntariamente o feio e disforme, porque produzindo este mal, o estará fazendo com plena consciência, que deste modo se apresenta na sua forma inteligível, tornando evidente o seu produto como Belo.

         Estas questões são eternas no que diz respeito à encenação de uma peça de Teatro. Se se tratar de Teatro!

         De um modo geral evidenciam-se os indivíduos de sucesso, são os "eleitos" pela maioria, são os preferidos pelos aficionados. Eles são sempre os mais premiados, são os íons. Enquanto os promovidos a críticos e observadores (analistas), os que são promovidos a sábios, são os hípias. Ainda hoje a sociedade e as "elites culturais" funcionam deste mesmo modo. Nada mudou.

        Assim o papel do observador crítico está em conhecer bem as obras pela acção dramática, e estar bem aberto a qualquer encenação. Do mesmo modo que deve reconhecer bem os íons e os hípias, não se deixando envolver naqueles aneis magnéticos dos aficionados, nem se deixando enganar pelas gerações de especialistas que tão bem evocam o "saber" pelas citações de citações, de citações... Mas também deve estar prevenido pelas alianças dos hípias com os íons, quase sempre acarinhadas e apoiadas pela sociedade representada pelas instituições do Poder que por estes distribui todos os meios ao seu alcance. Estes são os senhores do espectáculo, dos triunfos, das pantomimas, etc..


  
Observatório Crítico
Da encenação das obras de Gil Vicente.

Teatro Nacional de São João, Porto
Teatro Nacional D. Maria II, Lisboa
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Teatros Municipais de Portugal
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