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Ourives ou não? A quetão de poderem existir duas pessoas com o mesmo nome, no mesmo local, ao mesmo tempo, actuando e interagindo com a mesma elite e dela auferindo o modo de vida, sem haver qualquer referência a isso, foi uma invenção boçal dos universitários portugueses que ainda hoje confundem um ourives (escultor, artista plástico da renascença), com um ourives vendedor de ouro e joalheiro estabelecido com oficina própria, (ver Gil Vicente, Ed.70, 2008, imagem da capa em baixo). Tais obras, como as feitas por Gil Vicente, encomendavam-se aos artistas plásticos (ver Vasari). Mas mesmo os pintores e escultores, ainda hoje são desclassificados pelo sistema de ensino universitário em Portugal, os seus mestres têm de ser gente das "Letras". Uma aberração! Esta é a mesma dificuldade em aceitar que Gil Vicente seja ao mesmo tempo ourives e autor dos Autos, e daí a invenção (que se quer manter) de duas pessoas diferentes. Até porque se tivessem existido dois seria fácil de o demonstrar... |
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A literatura representada e identificada com autores dos livros a seguir, queremos (e oxalá) que representem apenas o crepúsculo, o canto do cisne daquilo que foi iniciado com o Ensaio da edição de Hamburgo de 1834, a fim de se alargarem as investigações. |



| Desde que em meados do século XIX se publicaram em Hamburgo (1834, Langhoff) as obras de Gil Vicente com um Ensaio sobre a vida e obras de Gil Vicente, que Osório Mateus atribuiu a Gomes Monteiro, que as academias têm aceitado e repetido à exaustão o que consta deste Ensaio no que diz respeito à lenda das influências de Gil Vicente, desde o Repelón, aos mistérios franceses... Em verdade chegamos a duvidar se alguma vez terão analisado (ou mesmo lido) o Auto del Repelón e algum dos mistérios, como duvidamos se alguma vez terão lido o Enquiridion de Erasmo de Roterdão. |
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No Livro das Obras da Quimera Editores (1993), Osório Mateus faz uma descrição muito completa de todas as edições românticas da Copilaçam de Gil Vicente e, sobre o referido Ensaio escreve: o que fica à vista é o anacronismo de quem escreve em 1834. (...) escreve uma biografia que até hoje não foi muito alterada. Conhece a literatura de Vicente e lança questões que até ao século XX ocupam os vicentistas românticos, sobretudo a lenda das influências, desde Juan del Encina e Torres Naharro até ao teatro de França e Itália. (pág.11). Sobre esta questão ainda pensámos em transcrever o referido ensaio, mas são tantos os disparates que não merece esse esforço. Para nós o Ensaio constitui o início da invenção de uma biografia para Gil Vicente, para a sua formação, para as suas fontes e para a origem da sua poética, da sua dramaturgia. Afinal trata-se de um ensaio datado de 1834, trabalho que nada tem de pesquisa, investigação, ou de análise de texto ou de época, etc.. Consideramos que o referido Ensaio não tem um mínimo de valor, aí estão as invenções da sua naturalidade, em Barcelos, Guimarães ou Lisboa, aí se confunde a mãe de Manuel I (Beatriz) com a sua mulher (Maria) e mãe de João III; aí se diz que invejava um filho que também se chamava Gil Vicente que terá escrito o Auto de Dom Luís e dos Turcos, e que por castigo o enviou para a Índia; aí se diz que Luís e Paula Vicente eram filhos de Branca Bezerra; etc., etc.; grande parte da biografia foi inventada pelo abade Diogo Barbosa que mais tarde os investigadores reduzem a insignificâncias. Contudo também neste Ensaio são lançadas as bases das origens culturais das obras de Gil Vicente. E se quanto à biografia, só as enciclopédias mais desatentas e caducas mantêm aquelas falsidades como hipóteses válidas, já quanto às origens culturais são os maiores sábios da nossa praça que ainda mantêm como verdade os pronunciamentos com ilustrações desconexas (textos de Encina e de mistérios franceses, um deles de 1541 Hotel de Flandres de Luiz Chocquet e Gil Vicente terá morrido em 1536), que o autor do Ensaio quis escrever deduzindo da leitura rápida de Gil Vicente em confronto com as últimas publicações da época em que escreve... Só barbaridades! Os textos ilustrativos das semelhanças com Juan del Encina são aqueles em que os autores figuram expressões populares, ou jogos, ou cantigas, ou modos de actuação no relacionamento entre pessoas... As formas aparentes de um texto, de qualquer texto. Nestes casos são sempre naturais as semelhanças, estranho seria que o não fossem! Ambos estão a reproduzir nas suas peças a vida, a cultura e o modo de ser e actuar de pessoas da mesma época, com os mesmos costumes e as mesmas tradições de jogos e de cantigas. Quanto à questão dos mistérios franceses, a muito comentada semelhança apenas se baseia no facto (e ainda hoje é assim) dos nomes, a hierarquia e caracterização dos entes do inferno serem as mesmas, tanto nos mistérios franceses como em Gil Vicente... Ora, isto só denota a ignorância do autor do Ensaio, pois quem restaurou tais entes (que antes haviam sido banidos da doutrina), os (re)caraterizou e organizou numa hierarquia angélica de anjos bons, anjos maus e suas lutas, foi frei Tomás, São Tomás de Aquino na Universidade de Paris. E, na época de Gil Vicente, é ainda Erasmo de Roterdão entre muitos outros que no Enquiridion (1503), embora se oponha a muitos dos preceitos de Tomás de Aquino, aceita plenamente as referências a Lucifer, Satanás, Belial e outros mais, caracterizando-os tal como Gil Vicente o fará. |
| A edição da Biblioteca Portugueza de 1852 (na primeira fotografia) é uma reprodução da edição de Hamburgo de 1834, e como possuímos um exemplar de cada um dos seus três volumes, temos acesso a tudo o que então se interpretou, inventou e publicou. |
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Dos investigadores que tentaram repor a verdade devemos destacar: Teófilo Braga com um amplo trabalho, Brito Rebelo desmascarando as invenções, e Anselmo Baamcamp Freire pesquisando todas as referências ao mundo pessoal e social que Gil Vicente faz nas suas obras. Depois quase não há continuidade na investigação. Repetiram-se e sedimentaram-se os mesmos erros, pondo ao mesmo nível o trabalho destes com as invenções dos outros. Com os ataques a que foram expostos, mesmo Teófilo Braga e Brito Rebelo chegaram a duvidar de si próprios... E a dúvida de Brito Rebelo, como a de Teófilo Braga, está no mesmo documento que tem servido para afirmar que há duas assinaturas de Gil Vicente que são diferentes, e que também serve para dizer que ele estava em Évora com a Corte portuguesa em Julho e Agosto de 1535 e aí terá permanecido até à morte. O recibo de 1535. Em verdade, este mesmo documento demonstra que Gil Vicente não estava em Évora naquela data, possivelmente por já estar doente e não se poder deslocar, e por essa razão o seu filho estaria em Évora para assinar aquele recibo, e nele terá colocado o nome de seu pai, pois, a quem eram antecipados oito mil reais por conta do que tinha a receber anualmente. Só esta atitude justifica a anotação de pé de página fazendo referência a Belchior Vicente. |
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Devemos ainda descrever a situação anedótica da atribuição do berço de Guimarães para Gil Vicente. Foi por uma proposta..., sim foi por proposta de Pires de Lima (?) que a naturalidade de Gil Vicente devia ser esta. E porquê? Porque naquela cidade havia muitos joalheiros (confundindo o comerciante da oficina de ourives, com o artista plástico), mas Lisboa teria muitos mais ourives (joalheiros)... Espantoso não é? Bom, mas como Guimarães foi apenas uma proposta inventiva (e até "patriótica"), houve quem afirmasse que Gil Vicente seria natural da Beira, porque num dos seus autos, que na forma aparente se passa na Beira, o autor faz referência a muitas localidades e costumes daquela região... Então avoluma-se a anedota..., com uma solução maravilhosa! Guimarães passaria a ser Guimarães de Tavares, uma localidade perto de Mangualde. Incrível não é mesmo!? E estas "soluções" são apresentadas seriamente... Por académicos. Justiça seja feita a Costa Pimpão, que detectou que Gil Vicente não tem assim tanta simpatia pelas Beiras dos seus Autos. Quanto às referências às localidades, aos costumes, ao queijo e à sua preparação, na obra de Gil Vicente, repare-se como as tais localidades se situam ou situavam no percurso de Lisboa, ou mesmo de Coimbra, para o Trancoso, a maior Feira de Portugal na época, e que esta localidade (Trancoso) está no percurso para Medina del Campo, a maior Feira de Espanha e uma das maiores da Europa. Assim como Gil Vicente, muitas outras pessoas terão passado por tais localidades, observado os costumes, e até por curiosidade, perguntado ao galego na Feira do Trancoso ou pelo caminho, na berma de uns matos sós, como se produz aquela iguaria, aquele queijo da serra da Estrela... |
| Assim em vez de continuarmos com as lendas criadas a partir deste Ensaio ou estudando outros textos "patrióticos", preferimos ler e analisar seriamente a obra de Gil Vicente. |
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